Meta description
Stablecoins como USDT e USDC já somam mais de US$ 100 bi em títulos do Tesouro dos EUA após a GENIUS Act. Entenda como elas viraram “novo Tesouro americano” e o impacto para quem guarda dinheiro em dólar tokenizado.
Introdução: quando o “dólar em cripto” vira comprador de dívida pública
O que começou como uma forma “cripto” de guardar dólar está virando uma peça importante do financiamento da dívida dos Estados Unidos.
Depois da aprovação da GENIUS Act, em julho de 2025, emissores de “payment stablecoins” passaram a ser obrigados a manter 100% de reservas em dólares ou títulos do Tesouro de curtíssimo prazo, dentro de critérios bem restritos de segurança.
Na prática, isso transformou cada dólar tokenizado emitido em:
mais demanda por T-bills (títulos do Tesouro americano de curto prazo).
Relatórios apontam que:
- USDT + USDC já detêm cerca de US$ 130 bilhões em T-bills, algo como 2,25% de todo o mercado de Treasury bills em junho de 2025;
- Ao somar outros emissores, o estoque de Treasuries na mão de stablecoins já se aproxima dos US$ 200 bilhões (cerca de 2% do mercado de Treasuries de curto prazo).
- Só nos primeiros meses de vigência das novas regras, estimativas falam em mais de US$ 100 bilhões em compras adicionais de títulos do Tesouro forçadas pela regulação.
As stablecoins viraram, de fato, um “novo Tesouro americano” – ou, pelo menos, um novo tipo de investidor estrutural em dívida pública dos EUA.
O que isso significa para USDT, USDC… e para você, que guarda dinheiro em dólar tokenizado?
É isso que vamos destrinchar.
1. O que é a GENIUS Act e o que ela exige das stablecoins
A GENIUS Act (Guiding and Establishing National Innovation for U.S. Stablecoins Act) é a primeira lei federal dos EUA focada em payment stablecoins – aquelas pensadas para pagamentos e uso no dia a dia, não apenas para trading.
Em resumo, ela:
- Cria um marco regulatório federal para emissores de stablecoins de pagamento;
- Define quem pode emitir, como deve ser o lastro e quais são as obrigações de transparência;
- Entrega supervisão principalmente ao Departamento do Tesouro / OCC, com coordenação com outros reguladores.
1.1. Regras de reservas: 100% em dólar e Treasuries de curto prazo
O ponto que nos interessa aqui é o padrão de reserva obrigatória:
- Emissores de payment stablecoins precisam manter 100% de reservas para cada token emitido;
- Essas reservas devem estar em:
- dólar em caixa,
- depósitos em bancos regulados,
- T-bills de curtíssimo prazo,
- operações compromissadas (repos) 100% garantidas por Treasuries;
- Ficam de fora (ou fortemente limitados) ativos como:
- crédito privado,
- ações,
- cripto volátil (como Bitcoin),
- ouro (no caso de stablecoins reguladas pela GENIUS Act).
Ou seja: nada de inventar moda no lastro. Quem quiser ser “stablecoin de pagamento” precisa ser, de fato, um money market super conservador em dólar/Treasuries.
2. Quanto USDT e USDC já compraram de títulos do Tesouro
Mesmo antes da GENIUS Act, stablecoins já eram grandes compradoras de Treasuries. Depois da lei, esse papel só aumentou.
2.1. Números atuais
Alguns dados-chave:
- Segundo análise da TD Securities, USDT e USDC juntos detinham cerca de US$ 130 bilhões em Treasury bills, algo como 2,25% de todo o mercado de T-bills em 30 de junho de 2025.
- A Reuters relata que cerca de 80% do market cap de stablecoins (aprox. US$ 256 bilhões na época) já está alocado em T-bills e repos – o que representa cerca de US$ 200 bilhões em demanda por dívida pública de curto prazo.
- Relatório citado pela Yellow indica que, após a GENIUS Act, as novas regras forçaram US$ 109 bilhões em compras de Treasuries em apenas quatro meses, à medida que emissores ajustavam o lastro para o padrão 100% seguro exigido.
Além disso:
- Estudos de TD Economics e Citi apontam que, mantendo o ritmo atual, stablecoins podem se tornar investidores “materiais” em T-bills e repos, com potencial de influenciar taxas de curto prazo e dinâmica de funding.
2.2. Projeções: está só começando
Comentário recente da Reuters cita projeções do próprio Federal Reserve indicando que:
- a demanda por stablecoins pode chegar a US$ 3 trilhões até 2030, o que, em boa parte, se transforma em demanda por Treasuries, dado o modelo 100% lastreado.
Se isso se confirmar, a “indústria de stablecoins” pode assumir um papel em Treasuries comparável ao QE de pandemia em termos de demanda marginal por dívida pública de curto prazo.
3. Por que faz sentido falar em “novo Tesouro americano”
Não é que as stablecoins substituíram o Tesouro. Mas elas viraram algo como:
Um grande fundo de money market tokenizado, cujo crescimento automaticamente gera compra de T-bills.
3.1. Stablecoins como money market tokenizado
Relatórios de TD Economics e Brookings destacam que:
- Emissores de stablecoins funcionam, na prática, como fundos de money market em dólar, concentrados em T-bills com vencimento abaixo de 90 dias e repos lastreados em Treasuries;
- Cada novo dólar que entra em stablecoins é canalizado para Treasuries ou equivalentes, o que:
- ajuda a absorver oferta crescente de dívida curto prazo,
- pode manter juros de curto prazo ligeiramente mais baixos do que seriam sem essa demanda.
Do lado fiscal:
- Brookings e Citi avaliam que stablecoins estão se tornando um investidor estrutural em Treasuries, com impacto real em liquidez, curva de juros curta e estabilidade do mercado.
3.2. Risco sistêmico: e se der “corrida” nas stablecoins?
Tem, porém, um lado B:
- O BCE e o BIS alertam que, se um grande emissor sofrer um “run” (corrida de resgate), pode ser obrigado a vender rapidamente dezenas ou centenas de bilhões em T-bills, provocando stress no próprio mercado de Treasuries.
Ou seja:
- Stablecoins ajudam a financiar a dívida americana;
- Mas também criam um canal de transmissão de choque: problema em cripto → venda forçada de Treasuries → turbulência em juros curtos → impacto no sistema financeiro mais amplo.
4. O que isso muda para quem guarda dinheiro em dólar tokenizado (USDT, USDC)
Para quem usa USDT, USDC e outras stablecoins como “conta em dólar”, esse novo cenário traz efeitos práticos.
4.1. Pontos positivos: lastro mais sério, menos “contabilidade criativa”
Com a GENIUS Act e a pressão de mercado:
- A base do lastro de stablecoins reguladas tende a ficar cada vez mais concentrada em ativos de altíssima liquidez e baixo risco de crédito (T-bills, repos, caixa em dólares);
- O nível de transparência e reporte aumenta:
- relatórios periódicos,
- detalhamento da composição de reservas,
- supervisão mais direta de órgãos como o OCC/Treasury.
Para você, isso significa:
- Menor chance de o emissor estar escondendo um buraco gigantesco no lastro;
- Mais estabilidade em cenários normais de mercado.
4.2. Mas atenção: nem todo emissor joga o mesmo jogo
Ao mesmo tempo:
- Ratings recentes da S&P mostram que, por exemplo, a Tether (USDT) ainda mantém cerca de 24% das reservas em ativos mais arriscados (bitcoin, ouro, crédito privado, empréstimos), o que levou a nota de risco da stablecoin para “weak”.
Isso indica que:
- Nem todo emissor está necessariamente 100% dentro do modelo GENIUS Act;
- Algumas stablecoins podem operar numa espécie de “zona cinza”:
- parte do negócio voltada ao padrão de payment stablecoin regulada,
- outra parte usando reservas em ativos de risco para gerar lucro.
Para o usuário final:
- Importa olhar quem é o emissor,
- Ler (ou pelo menos acompanhar resumos) dos relatórios de reservas,
- Entender que “dólar tokenizado” pode vir com perfis de risco bem diferentes dependendo de como o lastro é montado.
4.3. Riscos e trade-offs para o investidor/usuário
Alguns pontos pra ter no radar:
- Risco regulatório
- A mesma lei que deixa o ambiente mais “sério” também aumenta a chance de:
- congelamento de contas específicas,
- sanções,
- bloqueio de uso em certas jurisdições.
- A mesma lei que deixa o ambiente mais “sério” também aumenta a chance de:
- Risco de concentração em Treasuries
- Se o Tesouro americano enfrentar um stress severo (cenário extremo), toda a cadeia de stablecoins é afetada, já que o lastro está fortemente concentrado nessa dívida.
- Risco operacional e de governança
- Mesmo com Treasuries por trás, há risco de:
- má gestão de liquidez,
- falhas de custódia,
- problemas jurídicos com entidades que seguram os títulos.
- Mesmo com Treasuries por trás, há risco de:
Conclusão prática:
Stablecoin bem lastreada reduz risco de mercado, mas não zera risco de emissor, regulatório ou operacional.
5. O que fazer na prática se você guarda valor em stablecoins
Sem recomendação individual, mas alguns princípios saudáveis:
5.1. Diversificar emissores
Em vez de concentrar tudo em um único token:
- Dividir entre USDT, USDC e, eventualmente, outras stablecoins reguladas pode reduzir o risco idiossincrático de um emissor específico.
5.2. Acompanhar relatórios de reservas e notícias de rating
- Ficar de olho em:
- relatórios trimestrais/mensais de reservas;
- mudanças de rating (como o rebaixamento recente do USDT pela S&P);
- notícias de investigações, multas, sanções.
5.3. Ajustar tamanho de posição ao seu perfil de risco
- Mesmo sendo “dólar tokenizado”, stablecoin não é igual a conta garantida em banco com seguro de depósito;
- Percentual da carteira em stablecoin precisa respeitar:
- seu horizonte de tempo,
- sua necessidade de liquidez,
- sua tolerância a risco regulatório/operacional.
FAQ – Perguntas frequentes sobre stablecoins como “novo Tesouro americano”
1. Stablecoins realmente financiam a dívida dos EUA?
Sim. Emissores de stablecoins precisam manter reservas principalmente em T-bills e repos lastreados em Treasuries. USDT e USDC, sozinhas, já somam cerca de US$ 130 bilhões em T-bills (2,25% do mercado de Treasury bills), e o total de reservas em Treasuries na mão de emissores se aproxima dos US$ 200 bilhões.
2. A GENIUS Act garante que toda stablecoin é 100% segura?
Não. A lei define um padrão para payment stablecoins reguladas (100% reservas em dólar/Treasuries/caixa, alta liquidez, supervisão do Tesouro/OCC), mas:
- nem todo emissor se encaixa nesse regime;
- e mesmo dentro dele ainda existe risco de gestão, falhas operacionais e choques de mercado extremo.
3. Guardar dinheiro em USDT/USDC é igual a comprar T-bills diretamente?
Não. Você está exposto indiretamente aos T-bills, mas também:
- ao risco do emissor da stablecoin;
- ao risco de regulação, sanções, congelamentos;
- a possíveis mudanças nas regras de lastro.
Comprar Treasuries via corretora/banco e guardar stablecoin são estratégias parecidas em tese (dólar + juros curto prazo), mas com perfis de risco e governança bem diferentes.
4. Por que se fala em risco sistêmico das stablecoins para o mercado de Treasuries?
Porque, se houver uma corrida massiva de resgates em stablecoins grandes, os emissores podem ser forçados a vender rapidamente centenas de bilhões em T-bills para levantar caixa, gerando:
- pressão de venda,
- alta abrupta nas taxas de curto prazo,
- stress de liquidez no sistema financeiro tradicional.
Conclusão: dólar tokenizado, dívida pública e o novo jogo das stablecoins
As peças principais:
- A GENIUS Act empurrou emissores de stablecoins para um modelo de 100% reservas em dólar/Treasuries de curto prazo;
- Em poucos meses, isso já resultou em mais de US$ 100 bilhões em compras adicionais de títulos do Tesouro americano;
- Stablecoins como USDT e USDC deixaram de ser apenas “infra de cripto” e se tornaram grandes investidores estruturais em dívida pública de curto prazo.
Para quem usa dólar tokenizado:
- O lastro ficou, em tese, mais robusto e transparente;
- Mas a sua exposição passou a depender diretamente da saúde fiscal, monetária e regulatória dos EUA, e da governança de cada emissor.



