ETFs de ações internacionais estão ganhando espaço enquanto small caps americanas sofrem saídas. Entenda a lógica dos fluxos e como usar isso para diversificar sua carteira.
Durante anos, a resposta padrão para “onde investir em ações no exterior?” foi quase sempre a mesma: Estados Unidos, S&P 500 e pronto. Só que em 2025 o jogo ficou bem mais interessante.
Os dados de performance e fluxos mostram que muitos mercados fora dos EUA estão batendo a bolsa americana, e isso está se refletindo em um aumento expressivo na procura por ETFs de ações internacionais, Europa, Japão, Ásia, emergentes. Ao mesmo tempo, ETFs de small caps americanas acumulam saídas em meio à incerteza econômica e ao custo de capital ainda elevado.
Neste artigo, vamos destrinchar:
- por que ETF não é só S&P 500;
- o que explica a migração de fluxo para ações fora dos EUA;
- e por que as small caps americanas viraram o “elo frágil” dessa história.
Por que os ETFs de ações internacionais estão ganhando espaço
Quando você olha o gráfico de alguns índices globais em 2025, a história é clara:
- vários mercados desenvolvidos ex-US (Europa, Japão) têm períodos de desempenho superior aos EUA;
- alguns emergentes também entregam retorno interessante, com valuations mais baixos.
Isso tem alguns motivos estruturais:
Valuations menos esticados
Enquanto a bolsa americana passou anos sendo “precificada à perfeição”, boa parte de Europa, Japão e emergentes ficou:
- com múltiplos mais baixos;
- menos concentrada em big tech;
- mais exposta a setores “reais”: indústrias, bancos, energia, consumo.
Quando o mercado começa a questionar se não está pagando caro demais por crescimento nos EUA, ETFs de ações internacionais aparecem como alternativa natural.
Ciclos econômicos diferentes
Nem todo país anda no mesmo ritmo de:
- juros,
- inflação,
- estímulos,
- crescimento.
Ter exposição apenas aos EUA é, na prática, apostar em um único ciclo econômico. Ao adicionar ETFs de ações internacionais (Europa, Japão, emergentes), você começa a diluir esse risco.
Narrativa de diversificação geográfica saindo do PowerPoint
Durante muito tempo, “diversificar geograficamente” foi discurso bonito em relatório, mas pouco aplicado na vida real. Os fluxos recentes mostram uma mudança:
- entrada crescente em ETFs globais (que incluem EUA, Europa e outros desenvolvidos);
- uso de ETFs developed ex-US para tirar parte do peso dos EUA;
- reforço de ETFs de emergentes como camada de risco adicional, mas com tamanho controlado.
Exemplos de “cestos” que o investidor está usando
Sem citar códigos específicos (porque isso varia por corretora e jurisdição), a lógica dos principais tipos de ETFs de ações internacionais é:
ETFs globais “all world”
- Pegam um índice que junta EUA + resto do mundo;
- Normalmente ainda são dominados por empresas americanas, mas já trazem Europa, Japão, Canadá, Austrália, emergentes.
ETFs developed ex-US
- Focam só em mercados desenvolvidos fora dos EUA;
- Aumentam peso de Europa, Japão e outros desenvolvidos;
- Servem para “balancear” uma carteira que já é muito exposta ao S&P 500.
ETFs de mercados emergentes
- Reúnem países com maior risco político e econômico, mas também maior potencial de crescimento;
- Podem incluir Ásia, América Latina, Leste Europeu, etc.;
- Fazem sentido como camada tática de risco, não como base da carteira.
Para o brasileiro que opera via corretora local, muitas vezes o acesso vem por:
- BDRs de ETFs globais, ex-US e emergentes;
- ou fundos que replicam esses índices usando ETFs lá fora.
A “síndrome do só-EUA” e o risco de concentração invisível
O problema de ficar 100% em EUA não é só geográfico.
É também:
- setorial: muita exposição a tech e crescimento;
- de moeda: tudo atrelado ao dólar;
- de política econômica: extremamente dependente de Fed, Congresso, Casa Branca.
Quando você acha que está diversificado porque tem “vários ETFs diferentes”, mas todos eles são S&P 500, Nasdaq, growth USA e tech, na prática está concentrando sua vida financeira em uma única economia e em um punhado de mega caps.
A entrada em ETFs de ações internacionais é, em grande parte, uma correção desse excesso.
Small caps americanas: por que estão sofrendo tanto
Do outro lado da história, temos as small caps americanas, que:
- costumam ser mais alavancadas;
- dependem mais de crédito;
- são mais sensíveis a juros altos e desaceleração.
Quando o mercado começa a precificar:
- crescimento menor;
- crédito mais seletivo;
- margens pressionadas,
é natural que o investidor:
- reduza posição em small caps;
- mantenha (ou até aumente) exposição em grandes empresas com balanços mais fortes;
- e procure alternativas fora dos EUA.
Por isso, não surpreende ver ETFs de small caps acumulando saídas, enquanto ETFs de ações internacionais recebem entradas.
Como usar (ou evitar) small caps via ETF em cenário de incerteza
Small caps não são “proibidas”. Elas têm papel na carteira mas um papel específico:
- são mais voláteis, tanto pra cima quanto pra baixo;
- respondem mais às condições de crédito e ao humor com a economia doméstica;
- podem ser boas em ciclos de recuperação e expansão, mas cruéis em períodos de aperto.
Algumas abordagens possíveis:
- Perfil conservador: pode simplesmente não ter small caps, ou ter uma exposição mínima via ETFs amplos que já incluem um pouco desse segmento.
- Perfil moderado: pequena fatia em ETFs de small caps, com visão de longo prazo e ciente dos ciclos;
- Perfil agressivo: uso tático, sabendo que a volatilidade vai ser grande e que não faz sentido lotar a carteira de small caps quando o cenário macro é nebuloso.
O ponto central: se você não acompanha macro, crédito, juros e resultados com frequência, não faz sentido concentrar sua carteira em small caps, seja no Brasil, seja nos EUA.
Como combinar ETFs dos EUA e ETFs de ações internacionais na prática
Uma maneira didática de pensar:
- Base da carteira
- ETFs amplos de ações globais e/ou EUA;
- ETFs de renda fixa ou multimercados que tragam estabilidade.
- Diversificação geográfica adicional
- uma dose maior de ETFs developed ex-US;
- uma fatia controlada de emergentes.
- Camada tática
- decidir se small caps entram como “pimenta” ou ficam de fora;
- ajustar peso em EUA vs resto do mundo conforme seu horizonte, perfil e confiança na economia americana.
Não é sobre abandonar o S&P 500, e sim parar de depender apenas dele.
FAQ – Perguntas frequentes
Vale a pena trocar meus ETFs dos EUA por ETFs de ações internacionais?
Não precisa ser tudo ou nada. Em vez de “trocar tudo”, a abordagem mais saudável é reduzir a concentração em EUA e aumentar gradualmente a exposição a outros mercados via ETFs globais, ex-US e emergentes, dentro de um plano de alocação.
ETFs de ações internacionais são mais arriscados do que ETFs dos EUA?
Depende do tipo:
- developed ex-US tendem a ter risco semelhante, às vezes até menor em alguns períodos;
- emergentes têm mais volatilidade e risco político;
- o risco total vai depender da combinação de regiões e setores que o ETF carrega.
Small caps americanas são sempre uma má ideia em cenário de incerteza?
Não necessariamente. Mas é fato que elas sofrem mais quando juros estão altos e a economia desacelera. Se você não tem apetite para ver oscilações fortes, talvez faça mais sentido focar primeiro em índices amplos e apenas depois considerar small caps, com peso pequeno.
Como saber se estou “só-EUA” sem perceber?
Olhe a carteira e responda:
- quantos dos meus ETFs têm mais de 60–70% em ações dos EUA?
- quantos são SP500/Nasdaq/growth USA “reempacotados”?
Se a maioria for focada nos EUA, você provavelmente está com síndrome do só-EUA, mesmo achando que está diversificado.
Faz sentido ter ETFs de small caps e de ações internacionais ao mesmo tempo?
Pode fazer, desde que:
- você tenha uma base sólida (índices amplos, renda fixa);
- respeite um limite de exposição a segmentos mais voláteis;
- entenda que, em alguns momentos, ambos podem sofrer juntos se o mercado entrar em modo aversão a risco.
Conclusão
O movimento de 2025 não é um “meme passageiro”:
- ETFs de ações internacionais ganhando espaço,
- small caps americanas sofrendo saídas,
- e o investidor finalmente percebendo que apostar só em um país mesmo que sejam os EUA é concentração de risco.
A mensagem é simples, mas poderosa: ETF não é só S&P 500. Se você quer construir patrimônio de forma mais robusta, precisa olhar para o mapa inteiro, não apenas para um único quadrante.



