ETFs x hedge funds: como os ETFs se tornaram o veículo dominante e puxaram a gestão ativa para dentro do formato ETF

A indústria global de ETFs já supera hedge funds em mais de US$ 10 trilhões em ativos, enquanto ETFs ativos batem US$ 1,82 tri e atraem centenas de bilhões em 2025. Entenda por que os ETFs venceram a disputa contra hedge funds e como a gestão ativa está migrando para a “embalagem ETF”.


Introdução: o jogo virou e o veículo padrão agora é o ETF

Durante muitos anos, “sofisticação” no mercado significava:

  • hedge funds com estratégias complexas,
  • taxas altas (2% de administração + 20% de performance),
  • pouca transparência e acesso restrito a investidores qualificados.

Enquanto isso, ETFs eram vistos como:

  • “fundos de índice” simples,
  • baratos,
  • coisa de investidor que queria só “copiar o mercado”.

Corta para o fim de 2024 / 2025:

  • a indústria global de ETFs já supera hedge funds em mais de US$ 10 trilhões em ativos sob gestão (AUM);
  • ao mesmo tempo, ETFs ativos chegam a cerca de US$ 1,82 trilhão em ativos e mais de US$ 500 bilhões em entradas em 2025, enquanto muitos hedge funds e fundos tradicionais veem saídas líquidas.

Ou seja:

Os ETFs deixaram de ser “alternativa barata”
e passaram a ser o veículo dominante de alocação global
a ponto de a própria gestão ativa migrar para dentro do formato ETF.

Neste artigo, você vai ver:

  1. Como e por que os ETFs ultrapassaram hedge funds em ativos;
  2. O que está por trás do crescimento dos ETFs ativos;
  3. Como isso impacta o investidor brasileiro em termos de custo, risco, transparência e construção de carteira.

Sempre com um ponto importante em mente:
nada disso elimina risco de mercado ETF é só uma forma (muito eficiente) de embalar risco.


1. A virada histórica: ETFs ultrapassando hedge funds em mais de US$ 10 trilhões

1.1. O número que muda a narrativa

Relatórios de grandes consultorias e bases de dados de mercado mostram que, ao fim de 2024, a indústria global de ETFs já era mais de US$ 10 trilhões maior do que a de hedge funds em ativos sob gestão (AUM).

Enquanto:

  • ETFs globais ultrapassavam a casa dos US$ 15 a 19 trilhões em ativos,
  • os hedge funds ficavam na faixa de US$ 3, 4 trilhões, com leve crescimento ou até outflows líquidos em alguns segmentos.

O recado é forte:

o que era “produto secundário” virou plataforma principal.
Hedge funds continuam relevantes, mas a escala está com os ETFs.

1.2. Por que o dinheiro migrou para ETFs?

Alguns motivos estruturais:

  • Custo
    • ETFs (especialmente os de índice) cobram taxas muito menores.
    • Em vez de 2% + 20% dos hedge funds, você vê 0,03% a 0,20% em muitos ETFs de índices amplos.
  • Liquidez
    • ETFs são negociados em bolsa, com possibilidade de compra e venda intradiária;
    • hedge funds costumam ter janelas de resgate (mensal, trimestral, anual) e lock-ups.
  • Transparência
    • ETFs, em geral, divulgam composição com frequência alta (muitas vezes diária);
    • hedge funds são mais opacos, com menos disclosure de posição.
  • Acesso
    • ETFs são acessíveis ao varejo global, inclusive brasileiro via BDRs ou contas internacionais;
    • hedge funds, em geral, são restritos a qualificados e institucionais.
  • Desempenho relativo
    • boa parte dos hedge funds não conseguiu entregar, no agregado, uma performance consistentemente superior aos índices após taxas;
    • isso reforçou a tese: “se nem o hedge fund bate o índice, faz mais sentido comprar o índice barato”.

Resultado:

Em vez de pagar caro por uma promessa de “alfa” que muitas vezes não vem,
uma fatia crescente de investidores optou por comprar beta de forma barata via ETF
e usar uma parte menor do risco para buscar estratégias mais específicas.


2. Gestão ativa em embalagem de ETF: o boom dos ETFs ativos

2.1. De “fundos de índice” a veículo para qualquer estratégia

A narrativa antiga era:

  • ETF = produto passivo que replica índice;
  • fundo = lugar da gestão ativa.

Em 2025, isso está ultrapassado.

Os números:

  • ETFs ativos globais já somam cerca de US$ 1,82 trilhão em ativos;
  • só em 2025, captaram mais de US$ 523 bilhões, com mais de 60 meses seguidos de inflows;
  • o crescimento ano contra ano passa de 50% em algumas estimativas.

O que está acontecendo?

  • gestores que antes usavam:
    • fundo tradicional,
    • fundo multimercado,
    • estratégia “hedge fund-like”,

agora estão:

  • relançando suas estratégias em formato ETF ativo,
  • porque o mercado quer:
    • liquidez de ETF,
    • custo mais competitivo,
    • mais transparência,
    • e, em alguns países, vantagens tributárias.

2.2. Por que a gestão ativa está migrando dos hedge funds para ETFs ativos?

Algumas forças empurram essa migração:

  1. Pressão de taxa e performance
    • investidores estão intolerantes com taxas altas sem performance clara;
    • ETF ativo permite cobrar menos que um fundo tradicional, mantendo margem via escala.
  2. Comportamento do investidor institucional e varejo avançado
    • grandes allocators querem montar portfólios com blocos listados, fáceis de negociar;
    • varejo sofisticado prefere:
      • entrar e sair via home broker,
      • ver preço em tempo real,
      • e ter menos burocracia.
  3. Regulação e estrutura de produto
    • em vários países, o formato ETF oferece:
      • vantagens de eficiência tributária,
      • obrigações claras de transparência,
      • estrutura padronizada.
  4. Marketing e distribuição
    • ser listado em bolsa dá visibilidade;
    • plataformas digitais preferem listar ETFs a distribuir fundos com estrutura antiga.

Na prática, o que o mercado está dizendo é:

“Ok, eu ainda quero gestão ativa
mas quero essa gestão ativa dentro da embalagem ETF.”


3. ETFs x hedge funds: comparação honesta (sem romantizar nenhum lado)

3.1. Onde os ETFs ganharam o jogo

  • Escala ETF virou padrão global de acesso a beta (exposição a mercados, setores, fatores).
  • Custo/benefício para a maior parte dos investidores, faz mais sentido pagar 0,05% ao ano por um ETF de índice do que 2% + 20% para tentar “bater o mercado”.
  • Liquidez e simplicidade um ticker, book de oferta, profundidade de mercado e execução clara.

3.2. Onde hedge funds ainda têm espaço

Isso não significa que hedge funds “morreram”. Eles ainda têm espaço em:

  • estratégias altamente específicas:
    • arbitragem complexa,
    • event-driven sofisticado,
    • distressed,
    • private credit, etc.
  • operações com:
    • uso intensivo de derivativos OTC,
    • estruturas híbridas entre onshore e offshore,
    • prazos mais longos, menos compatíveis com uma estrutura ETF padrão.

Mas para o investidor médio:

  • o acesso prático é limitado;
  • o alinhamento entre custo e resultado nem sempre é claro.

Por isso, do ponto de vista de massa de capital, os ETFs estão levando vantagem.


4. O que isso muda para o investidor brasileiro

4.1. Menos “romance” com fundos caros, mais foco em bloco eficiente

Para o brasileiro, essa virada global traz algumas mensagens importantes:

  • Não faz mais sentido comprar qualquer coisa só porque tem o rótulo de “sofisticado” ou “estratégia hedge”.
  • Vale comparar:
    • taxa de administração,
    • estrutura de performance,
    • liquidez,
    • transparência,

entre:

  • fundo multimercado local,
  • BDR de ETF,
  • ETF listado lá fora,
  • e, eventualmente, produtos ativos em formato ETF.

4.2. Como usar ETFs passivos + ETFs ativos na prática

Uma abordagem racional é:

  • usar ETFs passivos como:
    • núcleo de exposição a bolsa global,
    • renda fixa global,
    • fatores amplos (value, quality, small caps),
  • e usar ETFs ativos para:
    • teses específicas (por exemplo, crédito corporativo global, estratégias flexíveis de duration, ações com filtro de qualidade/valor),
    • ou para complementar o portfólio com gestores que tenham tese clara, risco medido e custo razoável.

Nada disso elimina:

  • a necessidade de diversificar,
  • entender seu perfil de risco,
  • ter clareza de horizonte de investimento,
  • e aceitar que não existe modelo sem possibilidade de perda.

FAQ ETFs x hedge funds e a migração da gestão ativa

1. ETFs são sempre melhores que hedge funds?

Não existe “sempre melhor”.

  • ETFs ganharam em escala, custo e acessibilidade;
  • hedge funds ainda podem fazer sentido em nichos muito específicos para investidores qualificados.

Para a maioria das pessoas físicas, porém:

  • ETFs (passivos e ativos) tendem a oferecer uma relação risco/retorno/custo mais razoável do que a média dos hedge funds.

2. ETFs ativos são menos arriscados que hedge funds?

Não necessariamente.

  • ETFs ativos são gestão ativa, logo podem errar na escolha de ativos, timing, alavancagem (quando usada) etc.;
  • o formato ETF melhora liquidez e transparência, mas não garante performance nem reduz a volatilidade do mercado.

O que muda é:

  • você tem mais clareza de posição,
  • pode entrar e sair com mais facilidade,
  • e geralmente paga menos taxa do que em formatos tradicionais.

3. Vale a pena trocar fundos multimercado brasileiros por ETFs globais?

Depende do caso:

  • tem multimercado bom? tem.
  • tem ETF ruim? também tem.

O ponto é:

  • comparar custo, histórico, risco, correlação com sua carteira e objetivo do produto;
  • entender se o fundo multimercado realmente entrega algo que você não consegue montar com uma combinação de ETFs (passivos + ativos).

4. Como o investidor brasileiro pode acessar ETFs globais?

Algumas vias:

  • BDRs de ETFs negociados na B3;
  • conta em corretora internacional para comprar ETFs diretamente em NYSE/Nasdaq ou em bolsas europeias;
  • alguns fundos locais que investem em ETFs lá fora (embora aí você volte a pagar uma camada extra de taxa).

Sempre lembrando:

  • exposição internacional traz risco cambial;
  • é importante avaliar se esse risco faz sentido na sua estratégia.

5. Gestores de hedge funds vão desaparecer?

Provavelmente não.

Mas:

  • a tendência é que parte relevante da gestão ativa migre para formato ETF ativo;
  • gestores que ficarem em estruturas mais caras e menos transparentes vão ter que justificar isso com resultados e propostas verdadeiramente diferenciadas.

Conclusão: o ETF venceu a disputa de formato mas a guerra por resultado continua

A história recente do mercado global mostra:

  • ETFs ultrapassando hedge funds em mais de US$ 10 trilhões em ativos;
  • ETFs ativos com cerca de US$ 1,82 trilhão e mais de US$ 500 bilhões em novos aportes em 2025;
  • uma migração clara da gestão ativa para a embalagem ETF, mais eficiente em custo, liquidez e transparência.

Isso não significa:

  • que ETF é sinônimo de lucro,
  • ou que hedge fund é automaticamente ruim.

Significa que:

se você quer jogar o jogo de forma competitiva,
precisa olhar além do marketing e entender que o mundo já escolheu ETFs como veículo padrão de exposição.

Para o investidor brasileiro, a oportunidade está em:

  • usar ETFs (passivos e ativos) como blocos inteligentes de alocação,
  • reduzir custo onde não faz sentido pagar caro,
  • e reservar risco para teses realmente diferenciadas sempre com gestão de risco, sem fantasia de ganho garantido.

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