ETFs globais como “sistema operacional” dos investimentos e o risco de concentração que quase ninguém vê

ETFs globais somam US$ 19,25 tri e mais de 15 mil produtos em 2025, liderados por iShares, Vanguard e SPDR com quase 60% do mercado. Entenda como os ETFs viraram o sistema operacional dos investimentos – e qual é o risco de concentração por trás disso.


Quando o “fundinho de índice” vira a espinha dorsal do mercado

Em 2025, os ETFs globais deixaram oficialmente de ser “produto de nicho”:

  • a ETFGI estima US$ 19,25 trilhões em ativos na indústria global de ETFs ao fim de outubro,
  • com US$ 1,82 trilhão em entradas no ano e 77 meses seguidos de inflows, recorde histórico;
  • são mais de 15.347 produtos, com 30.007 listagens, oferecidos por 928 provedores em 83 bolsas de 65 países.

Na prática:

ETFs globais viraram o sistema operacional dos investimentos
por onde passa boa parte do fluxo em ações, renda fixa, commodities e, cada vez mais, cripto.

Mas há um lado menos óbvio:

  • três gigantes iShares, Vanguard e SPDR concentram quase 60% dos ativos,
  • muitos índices amplos estão hiperconcentrados em megacaps de tecnologia e IA,
  • e o investidor acha que está “hiperdiversificado” quando, na verdade, tem muito risco em poucas empresas e poucos provedores.

Neste artigo, vamos dissecar:

  1. como os ETFs globais viraram infraestrutura;
  2. onde está o risco de concentração invisível;
  3. e como o investidor brasileiro pode usar ETFs globais com consciência de risco – e não no piloto automático.

ETFs globais: de produto exótico a infraestrutura padrão

O número bruto: US$ 19,25 trilhões e fluxo “insano” em 2025

Segundo a ETFGI e outros relatórios recentes:

  • ativos em ETFs globais cresceram quase 30% no ano,
  • saltando de cerca de US$ 14,85 trilhões no fim de 2024 para US$ 19,25 trilhões em 2025;
  • US$ 1,82 trilhão de entradas de janeiro a outubro, o maior valor anual já registrado;
  • 77 meses consecutivos de inflows – ou seja, mais de 6 anos sem mês negativo em fluxo agregado.

Quem está puxando esse dinheiro?

  • Equity ETFs com mais de US$ 800 bi em entradas;
  • bond ETFs com mais de US$ 360 bi;
  • ETFs de commodities somando mais de US$ 80 bi no ano;
  • e ETFs ativos com mais de US$ 523 bi de inflows.

Na prática:

Se há fluxo relevante em algum mercado hoje,
quase sempre passa por um ETF global em algum ponto da cadeia.

15 mil produtos, 30 mil listagens: a “caixa de ferramentas” ficou gigante

Os dados da ETFGI indicam que, em outubro de 2025, o universo de ETFs globais tinha:

  • 15.347 produtos diferentes,
  • 30.007 listagens (já que muitos ETFs são listados em mais de uma bolsa),
  • 928 provedores em 83 bolsas de 65 países.

O investidor consegue acessar via ETF:

  • índices amplos de ações (Mundo, ACWI, S&P, MSCI),
  • setores específicos (tech, financeiro, saúde, energia),
  • fatores (value, quality, low vol, small caps),
  • renda fixa (governo, crédito, high yield, emergentes),
  • commodities (ouro, petróleo, metais),
  • cripto, temáticos, ESG, IA, defesa, urânio e por aí vai.

A boa notícia:

  • você tem uma caixa de ferramentas histórica para montar portfólio.

A má notícia:

  • é fácil se perder,
  • é fácil concentrar risco sem perceber,
  • e é fácil comprar “o que está bombando” sem olhar para a estrutura por trás.

A face oculta: concentração em poucos provedores e megacaps

Três gigantes controlando quase 60% do mercado

Os números da ETFGI são claros:

  • iShares (BlackRock) – cerca de US$ 5,40 trilhões em ativos, 28% de market share;
  • Vanguard – aproximadamente US$ 4,13 trilhões, cerca de 21–22%;
  • SPDR (State Street) – algo como US$ 1,95 trilhão, 10% de participação.

Juntas:

  • essas três casas somam ** ~59–60% de todos os ativos em ETFs globais**,
  • enquanto os outros 925 provedores ficam com fatias inferiores a 6% cada.

Isso cria uma concentração de infraestrutura:

  • se há um problema operacional, regulatório ou de reputação com uma dessas casas,
  • uma parte enorme do mercado é impactada direta ou indiretamente.

Não é motivo para pânico, mas:

é ingenuidade achar que “ETF é sempre seguro por definição”
sem levar em conta a concentração de poder em poucos emissores.

Índices amplos com peso gigantesco em tech/IA

Do lado dos índices:

  • muitos ETFs globais seguem índices como S&P 500, Nasdaq 100, MSCI World/ACWI, etc.;
  • esses índices, por construção, acabam hiperconcentrados em megacaps de tecnologia e IA.

Resultado:

  • você compra “diversificação global”,
  • mas 20–30% do risco está em meia dúzia de empresas de tech/IA (dependendo do índice);
  • se esse grupo sofre uma correção forte, todo o ETF sofre, mesmo com centenas ou milhares de outros nomes na carteira.

Isso não significa que esses ETFs são ruins. Significa:

  • é preciso saber no que você está realmente exposto,
  • e complementar, quando fizer sentido, com:
    • ETFs equal-weight,
    • fatores (value, quality),
    • ou exposições setoriais/geográficas que reduzam essa concentração.

Diversificado ou concentrado demais? Como ler esse risco

Os dois níveis de concentração que você precisa olhar

Quando falamos em risco de concentração em ETFs globais, há dois níveis:

  1. Concentração por emissor/provedor
    • muito patrimônio em poucos nomes (iShares, Vanguard, SPDR);
    • risco de dependência operacional e de governança.
  2. Concentração dentro do próprio índice/ETF
    • peso exagerado em poucas ações (big techs/IA);
    • concentração por país (Only USA), setor ou fator.

Se você ignora esses dois níveis e apenas “compra qualquer ETF global barato”, pode acabar com:

  • 70–80% do risco em:
    • um único país,
    • um único setor,
    • e três provedores.

Sinais práticos de que seu ETF pode estar concentrado demais

Alguns sinais de alerta:

  • Top 10 holdings do ETF somam mais de 40–50% do patrimônio;
  • presença dominante de 5–7 empresas em praticamente todos os ETFs que você tem;
  • todos os seus ETFs são emitidos por um único provedor;
  • quase toda exposição internacional está em um só país (geralmente EUA).

Nenhum desses itens é proibido, mas se todos aparecem juntos, vale revisar a estratégia.


Como o investidor brasileiro pode usar ETFs globais com consciência de risco

Comece pelo básico: o que o ETF faz de verdade?

Antes de clicar em “comprar”:

  • leia o nome completo do ETF;
  • veja qual é o índice de referência;
  • confira:
    • top 10 posições,
    • países,
    • setores,
    • taxa de administração,
    • e emissor.

Em muitos casos, só essa checagem já mostra se você está:

  • repetindo demais o mesmo risco,
  • ou realmente diversificando.

Combine blocos em vez de apostar tudo em um único ETF

Uma forma mais saudável de usar ETFs globais:

  • montar blocos, por exemplo:
    • ETF global amplo (World/ACWI);
    • ETF de developed ex-US (tirando um pouco o peso exagerado dos EUA);
    • ETF de emergentes;
    • eventualmente, um equal-weight ou estratégias que reduzem concentração em megacaps.
  • diversificar também entre emissores (iShares, Vanguard, SPDR, outros provedores de boa reputação).

Isso não elimina o risco, mas torna sua carteira:

  • menos dependente de um único índice,
  • menos refém de poucas empresas ou poucos provedores.

FAQ ETFs globais, concentração e risco em 2025

ETFs globais são realmente diversificados?

Eles são diversificados em número de ativos, mas isso não garante:

  • diversificação de fatores,
  • de setores,
  • de países,
  • nem de provedores.

Muitos ETFs globais têm:

  • peso alto em EUA,
  • concentração em big tech/IA,
  • e são emitidos por poucos players.

Ainda assim, para a maioria dos investidores, ETFs globais são uma forma muito melhor de diversificar do que escolher meia dúzia de ações soltas.


Como eu descubro se meu ETF está concentrado demais?

Passos simples:

  1. Olhar o top 10 holdings e ver que percentual do ETF isso representa;
  2. Checar o peso por país e setor;
  3. Ver se você tem vários ETFs com as mesmas ações líderes;
  4. Ver se todos os seus ETFs vêm do mesmo emissor.

Se tudo aponta para os mesmos nomes, é sinal de concentração maior do que parece.


Faz sentido diversificar entre iShares, Vanguard, SPDR e outros?

Pode fazer sentido, sim:

  • você reduz a dependência operacional e de governança em um só emissor;
  • aproveita produtos específicos que cada casa faz melhor;
  • e ainda pode comparar custos e liquidez entre alternativas.

Não é obrigatório “espalhar por espalhar”, mas é saudável não ficar 100% preso a um único provedor sem motivo.


ETFs globais eliminam o risco de grandes quedas?

Não.

  • ETFs globais ainda são renda variável (no caso de ações) e podem cair forte em crises;
  • o que eles fazem é diluir o risco específico de uma empresa ou setor.

Se o mundo inteiro passar por uma correção, seu ETF global vai sofrer também.
Gestão de risco continua sendo:

  • tamanho de posição,
  • diversificação entre classes de ativos (renda fixa, caixa, etc.),
  • horizonte de prazo.

É melhor começar por ETFs globais ou por ETFs de países/temas específicos?

Para a maioria dos investidores:

  • faz mais sentido começar por ETFs globais amplos,
  • e depois, com mais experiência, adicionar:
    • blocos regionais (Europa, Japão, emergentes),
    • ou temáticos (IA, energia, etc.).

Ir direto para um temático super concentrado (como só IA ou só cripto) sem a base global é uma forma de superconcentrar risco logo de cara.


ETFs globais venceram como formato – agora o desafio é não dormir no volante

Os números são claros:

  • US$ 19,25 trilhões em ETFs globais,
  • 15 mil produtos, 30 mil listagens,
  • quase 60% dos ativos concentrados em três provedores.

Os ETFs globais se tornaram:

  • a infraestrutura padrão dos investimentos,
  • o caminho natural para acessar ações, renda fixa, commodities e temas do momento.

Mas isso não significa:

  • que todo ETF é automaticamente seguro;
  • que “comprar qualquer coisa com ETF no nome” é sinônimo de diversificação inteligente.

O jogo agora é outro:

usar a eficiência dos ETFs globais
sem ignorar o risco de concentração em poucos índices, empresas e provedores.

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