Frenesi da tesouraria cripto em xeque: por que empresas estão vendendo Bitcoin depois do crash?

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Entenda por que empresas que adotaram Bitcoin no balanço estão sendo pressionadas na bolsa e vendendo cripto após o crash – e o que isso sinaliza para investidores.


Introdução: quando o “Saylor trade” vira dor de cabeça

Durante boa parte de 2025, várias empresas copiaram o playbook de Michael Saylor:
levantar capital, comprar Bitcoin para a tesouraria e vender a narrativa de “ativo escasso no balanço” como diferencial para o mercado.

Esse modelo, batizado de digital asset treasury (DAT), cresceu rápido. Relatórios citam mais de 200 companhias listadas com posições relevantes em Bitcoin e outras criptos no balanço, algumas quase virando “ETFs disfarçados de empresa”.

Só que o crash recente apagou cerca de US$ 1 trilhão em valor do mercado cripto e derrubou forte as ações dessas “empresas-tesouraria”. Hoje:

  • vários papéis estão negociando abaixo do valor dos criptoativos que possuem;
  • algumas companhias já começaram a vender Bitcoin e outras criptos para pagar dívida ou sustentar programas de recompra de ações.

Neste cenário, a pergunta é inevitável:

o frenesi da tesouraria cripto era inovação de verdade ou só mais uma bolha de narrativa?

E, principalmente: o que isso significa para quem investe em ações dessas empresas – ou carrega BTC pensando em seguir o mesmo caminho?


1. Como nasceu o “frenesi da tesouraria cripto”

1.1. O modelo Michael Saylor

Em 2020, Michael Saylor transformou a então MicroStrategy (hoje Strategy) em símbolo máximo de Bitcoin no balanço:

  • trocou caixa em dólar por BTC;
  • emitiu ações e dívidas para comprar mais moedas;
  • passou a se vender como “empresa de inteligência de negócios com reserva em Bitcoin”.

O case deu certo enquanto:

  • o preço do BTC subia;
  • o mercado aceitava pagar prêmio pela ação em relação ao valor dos BTC na carteira.

Isso criou um efeito de imitação:
empresas de setores diversos (tech, saúde, mineração, small caps em crise) começaram a copiar a ideia – muitas vezes com muito menos geração de caixa e muito mais risco.

1.2. De “inovação financeira” a modelo de marketing

Conteúdos recentes apontam que grande parte dessas tesourarias cripto foi, na prática, estratégia de marketing e arbitragem de múltiplo, não gestão prudente de caixa:

  • levantar equity ou dívida;
  • comprar BTC/ETH;
  • contar com alta de preço para inflar o valor de mercado e emitir ainda mais ações.

Enquanto o mercado estava em euforia, funcionou.
Com o crash, o jogo virou.


2. O que mudou depois do crash de 2025

2.1. Ações abaixo do valor das reservas em cripto

O tombo de BTC e de outras moedas gerou um choque duplo:

  1. Cripto caiu – reduzindo o valor da reserva.
  2. Ações dessas empresas caíram ainda mais, por perda de confiança no modelo.

Relatórios recentes mostram que:

  • pelo menos 15 empresas de tesouraria cripto já negociam abaixo do valor líquido dos criptoativos que possuem (desconto sobre NAV);
  • o valor de mercado agregado desse setor caiu de US$ 176 bi para US$ 99 bi entre julho e novembro – destruição de cerca de US$ 77 bi.

Na prática, o mercado está dizendo:

“não confiamos no modelo a ponto de pagar nem o valor dos BTC/ETH que vocês têm”.

2.2. Pressão de acionistas e credores

Com o descolamento entre valor de mercado e reservas em cripto:

  • acionistas cobram uso desse “colateral” para recomprar ações baratas ou reduzir endividamento;
  • credores veem a reserva de Bitcoin como fonte óbvia de liquidez para amortizar dívidas corporativas.

É aí que começa a fase de venda forçada de cripto pela tesouraria.


3. Quem já está vendendo Bitcoin (e outras criptos) para sobreviver

Alguns casos emblemáticos que apareceram nas últimas semanas:

3.1. Sequans: vendendo BTC para pagar dívida

A Sequans, empresa de semicondutores listada na Nasdaq e com perfil de digital asset treasury, anunciou a venda de aproximadamente 970 BTC, quase um terço da posição, para pagar cerca de US$ 94,5 milhões em dívida conversível.

  • As reservas em BTC caíram de cerca de 3.234 para 2.264 moedas;
  • A empresa enquadrou o movimento como “gestão prudente de balanço”, mas o mercado leu como sinal de aperto financeiro.

3.2. ETHZilla e FG Nexus: vendendo para recomprar ações

Em relatórios de mercado:

  • a ETHZilla, focada em tesouraria de Ether, vendeu cerca de US$ 40 milhões em ETH para ajudar a sustentar o preço da ação;
  • a FG Nexus anunciou a venda de 10.922 ETH para financiar um programa de recompra de ações de aproximadamente US$ 33 milhões.

Aqui o recado é claro:

“vamos queimar parte do cofre cripto para tentar salvar a cotação”.

3.3. Metaplanet e outros: alavancando BTC ou sob risco extremo

Casos citados em análises de Bitcoin treasuries:

  • a japonesa Metaplanet viu suas ações derreterem mais de 80% e estuda tomar dívida usando BTC como colateral para recompras;
  • relatórios falam em até 95% das empresas de tesouraria cripto com risco de não sobreviver se o ciclo negativo se prolongar.

Enquanto isso, a própria Strategy (ex-MicroStrategy) insiste em seguir comprando BTC e nega qualquer venda, apesar dos boatos que ajudaram a intensificar o pânico.


4. Por que empresas estão vendendo Bitcoin depois do crash

Resumindo os principais motivos:

4.1. Dívida ficou cara – e o mercado fechou a torneira

Muitas dessas empresas:

  • emitiram dívida conversível ou bonds em ambiente de juros baixos e euforia;
  • contavam com alta contínua do BTC para manter alavancagem sob controle.

Com juros altos + queda de cripto:

  • o custo de rolar dívida subiu;
  • o mercado se fechou para novas emissões com narrativa “vamos comprar mais Bitcoin”.

Resultado:
vender parte da tesouraria cripto vira a forma mais rápida de evitar default.

4.2. Desconto sobre NAV e pressão para destravar valor

Quando a ação negocia abaixo do valor dos BTC/ETH no balanço:

  • alguns investidores ativistas defendem: “vendam parte das reservas e usem para recomprar ações – assim o valor por ação sobe.”

Essa lógica tem aparecido em análises sobre Bitcoin treasuries enfrentando “NAV discount” e buscando alternativas como:

  • share buybacks financiados por venda de cripto;
  • operações de hedge ou geração de yield com BTC em DeFi/derivativos.

4.3. Modelo de negócio frágil: empresa ≈ ETF mal estruturado

Outra crítica recorrente:

  • muitas digital asset treasuries não têm operação forte fora da aposta em cripto;
  • dependem de novas emissões de ações/dívida para continuar comprando coins;
  • quando o ciclo vira, esse modelo parece um ETF mal gerido com custo alto e governança duvidosa.

Daí a frase dura de alguns analistas:

“isso está mais para bolha de 2021 versão 2.0 do que para inovação financeira”.


5. O que isso sinaliza para investidores em ações e em Bitcoin

5.1. Para quem compra ações de empresas com Bitcoin no balanço

Alguns cuidados práticos:

  • Separar o que é operação real do que é só tesouraria cripto
    • Empresa gera caixa com produto/serviço competitivo?
    • Ou praticamente virou veículo de aposta em BTC?
  • Olhar a relação preço de mercado / valor dos criptoativos (NAV)
    • Muito prêmio → você está pagando caro por algo que poderia montar comprando BTC direto;
    • Muito desconto → pode ter oportunidade, mas também sinal de desconfiança em dívida, gestão ou liquidez.
  • Checar endividamento e vencimentos
    • empresas como Sequans mostraram que, com a corda no pescoço, primeiro some o BTC, depois some o equity.

5.2. Para quem só quer comprar Bitcoin “puro”

Se o seu foco é BTC em si, não ações:

  • movimentos de venda dessas empresas podem gerar pressão adicional de curto prazo no preço;
  • mas, em um horizonte de ciclo, o que manda ainda é:
    • adoção,
    • macro (juros/liquidez),
    • comportamento de grandes holders e ETFs.

A lição principal:

copiar estratégia de tesouraria cripto alavancada em nível pessoal (tomando dívida para comprar BTC) é muito mais arriscado do que parece nos threads de X.

5.3. Gestão de risco continua sendo o centro do jogo

  • Bitcoin continua sendo um ativo extremamente volátil;
  • nem empresas com CFO, conselho e auditor conseguem evitar decisões questionáveis – imagina varejo alavancado.
  • faz mais sentido:
    • definir tamanho máximo de exposição em BTC;
    • evitar uso pesado de crédito para comprar cripto;
    • pensar em ciclos de anos, não em meses.

FAQ – Perguntas frequentes sobre tesouraria cripto e venda de Bitcoin por empresas

1. Por que empresas copiaram a estratégia de Michael Saylor?
Porque, enquanto o Bitcoin subia, colocar BTC no balanço inflava o valor de mercado e permitia levantar mais capital barato. Parecia uma forma “inteligente” de transformar caixa em ativo escasso – até o ciclo virar.

2. Vender Bitcoin agora significa que as empresas deixaram de acreditar em cripto?
Não necessariamente. Na maioria dos casos, a venda é menos ideológica e mais de sobrevivência financeira: pagar dívida, recomprar ações, reforçar caixa. Cripto pode continuar na tese de longo prazo, mas o balanço de curto prazo manda mais.

3. Empresas com Bitcoin no balanço derrubam o preço quando vendem?
Dependendo do tamanho da posição e da liquidez do mercado, sim, podem gerar pressão extra de venda – especialmente se várias tesourarias forem obrigadas a liquidar ao mesmo tempo num ambiente frágil.

4. Vale a pena comprar ações de empresas com desconto em relação ao BTC que elas têm?
Desconto pode ser oportunidade, mas também alerta de risco: talvez o mercado esteja precificando problemas de dívida, governança ou sustentabilidade do modelo. É preciso analisar:

  • nível de endividamento,
  • fluxo de caixa operacional,
  • histórico da gestão.

5. Faz sentido pessoa física copiar a estratégia de tesouraria cripto?
Na maioria dos casos, não. Empresas têm acesso a capital, assessoria, hedge e estruturas que o investidor comum não tem. Para PF, misturar alavancagem pesada + concentração em BTC costuma terminar mal em ciclos de queda. A exposição em cripto precisa caber no seu perfil de risco e no seu horizonte de tempo.


Conclusão: o recado por trás da venda de Bitcoin pelas empresas

O movimento atual de empresas vendendo Bitcoin depois do crash não é só um detalhe de mercado:

  • mostra que o modelo de tesouraria cripto alavancada é muito mais frágil do que parecia durante o bull market;
  • expõe que muitas companhias usaram BTC mais como marketing do que como gestão séria de caixa;
  • e deixa claro que, quando o ciclo vira, balanço e dívida mandam mais do que qualquer narrativa de “hodl eterno”.

Para você, investidor ou trader:

  • cuidado ao comprar ações só porque “a empresa tem muito bitcoin”;
  • não confunda tesouraria cripto com modelo de negócio sólido;
  • e, se quiser exposição em BTC, considere se não é mais simples (e transparente) comprar o ativo direto em vez de usar empresas como “proxy” sem entender o risco embutido.

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