Três gestoras concentram quase 60% de todos os ativos em ETFs no mundo. Entenda o impacto de iShares, Vanguard e SPDR dominarem o mercado – e como emissores de nicho disputam fluxo com ETFs temáticos.
Introdução
Quando você compra um ETF “genérico” de S&P 500, Treasuries ou MSCI World, é bem provável que o emissor seja sempre um destes três nomes:
- iShares (BlackRock)
- Vanguard
- SPDR (State Street)
Segundo a ETFGI, esses três provedores concentram cerca de 59,6% de todos os ativos em ETFs globais, com participações de aproximadamente 28% (iShares), 21,4% (Vanguard) e 10,1% (SPDR) dentro de uma indústria que já soma US$ 19,25 trilhões e mais de 15 mil produtos.
Isso traz vantagens óbvias – custo baixo, liquidez, eficiência – mas também acende debates sobre concentração de poder, voto em assembleias e espaço para inovação.
Ao mesmo tempo, gestoras médias e pequenas encontram outro caminho: ETFs temáticos e de nicho, mais caros e específicos, para “furar a bolha” e capturar um pedaço do fluxo.
Por que iShares, Vanguard e SPDR viraram o “default” global
As razões para a dominância desses três players são relativamente simples:
- Escala: décadas de existência, centenas de bilhões (ou trilhões) em AUM;
- Custo: taxas muito baixas em produtos core como S&P 500, Treasuries, MSCI World;
- Liquidez: spreads estreitos, alta negociação diária, grande presença em carteiras institucionais;
- Marca: para o investidor comum e para o institucional, esses nomes viraram sinônimo de “ETF padrão”.
Matematicamente, isso cria uma dinâmica de retroalimentação:
- mais fluxo → mais liquidez → mais inclusão em carteiras modelo → mais fluxo.
Não é à toa que produtos como VOO (Vanguard S&P 500) e IVV (iShares Core S&P 500) vivem disputando o posto de maiores ETFs do mundo, com capacidade de atrair dezenas de bilhões em poucos meses.
O lado bom da concentração para o investidor
Do ponto de vista do investidor final, há claros benefícios em usar esses gigantes:
- Menor risco operacional: casas bem capitalizadas, com compliance robusto e longa história.
- Eficiência de custos: economia de escala permite taxas quase “irrisórias” em muitos ETFs core.
- Risco de liquidez reduzido: é difícil ficar “preso” em um ETF de S&P 500 da iShares ou da Vanguard.
Para quem está montando o núcleo da carteira (ações globais, renda fixa de qualidade, índices amplos), faz muito sentido priorizar produtos desses emissores.
O lado problemático: poder de voto e risco de concentração invisível
A crítica surge principalmente em dois pontos:
- Poder de voto: se três gestoras concentram a maior parte das posições em grandes empresas, elas passam a ter um peso desproporcional em assembleias, conselhos e decisões estratégicas das companhias.
- Concentração “disfarçada”: muitos investidores acreditam que, por terem vários ETFs, estão super diversificados – mas na prática carregam exposição enorme às mesmas mega caps de tech/IA dentro de diferentes índices e produtos.
Em outras palavras: você pode ter 10 ETFs na carteira e, ainda assim, estar lotado nas mesmas 10 empresas.
Esse é um risco mais de estratégia do que de produto, mas a concentração de emissores certamente intensifica o efeito.
Como gestoras de nicho usam ETFs temáticos para disputar fluxo
Enquanto os gigantes dominam o “feijão com arroz” (S&P 500, MSCI World, Treasuries, agregados globais), casas menores encontraram outra avenida:
- ETFs temáticos de IA específica, como infraestrutura de data centers, semicondutores de nicho, cibersegurança;
- ETFs de commodities e metais (cobre, urânio, metais industriais) ligados à transição energética;
- estratégias de renda via covered calls, buffer, option income;
- temáticos de setores como defesa, longevidade, biotecnologia, Web3 etc.
Esses produtos:
- cobram taxas mais altas, justamente porque não competem diretamente com os cores de iShares/Vanguard/SPDR;
- oferecem uma tese “sexy”, que conversa com narrativas em alta (IA, energia limpa, defesa, cripto);
- funcionam como ferramentas para investidores que querem adicionar sabor à carteira.
O trade-off:
- mais potencial de diferenciação;
- mais risco de liquidez limitada, concentrações extremas e ciclos curtos de moda.
Como equilibrar gigantes e nichos na sua carteira
Uma forma prática de usar essa dinâmica a seu favor:
- Use iShares/Vanguard/SPDR para o núcleo de exposição (ex.: S&P 500, global ex-US, renda fixa global).
- Use emissores de nicho apenas para pequenas apostas temáticas, com tamanho de posição bem limitado.
- Evite empilhar muitos temáticos sobre os mesmos nomes (ex.: três ETFs diferentes que, na prática, só compram as mesmas big techs de IA).
- Avalie sempre custo vs. valor agregado: pagar taxa alta para comprar as mesmas 10 ações que um ETF barato já oferece não faz sentido.
A diversificação real vem mais de combinar geografias, classes de ativo e fatores do que de colecionar tickers bonitos.
Perguntas frequentes sobre concentração em grandes emissores de ETFs
É arriscado demais usar só ETFs da iShares/Vanguard na carteira?
Risco de produto é baixo, mas o risco está em você replicar demais as mesmas exposições. Ter apenas grandes índices americanos pode te deixar concentrado em um país, um estilo (growth/tech) e meia dúzia de empresas.
Faz sentido usar apenas ETFs de emissores pequenos para “fugir dos gigantes”?
Também não é o ideal. Emissores pequenos podem ter mais risco de liquidez e dependem de narrativas específicas. O caminho mais equilibrado é usar gigantes para o core e nichos para a borda da carteira.
ETFs de nicho sempre são mais caros. Isso é um problema?
Custo mais alto é aceitável se o valor agregado for real: acesso a um tema específico, exposição diferenciada, estratégia estruturada. O problema é pagar caro por algo que não entrega nada diferente de um índice barato.
Os grandes emissores podem “quebrar” o mercado por causa da concentração?
É pouco provável em termos de colapso, mas há debates sérios sobre o impacto de voto, governança e precificação. Como investidor individual, o seu foco principal deve ser não se deixar levar por falsa sensação de mega diversificação.
Vale a pena escolher ETF só pela marca do emissor?
Marca importa, mas não é tudo. Olhe também para índice, metodologia, taxa, liquidez e encaixe na sua carteira. Um ETF de nicho bem construído pode ser mais útil do que um ETF “genérico” de enorme emissor – desde que usado na dose certa.
Conclusão
O mundo dos ETFs hoje é, de um lado, extremamente concentrado em poucos emissores globais, e, de outro, fermentado por uma explosão de produtos de nicho.
iShares, Vanguard e SPDR respondem por quase 60% de todos os ativos, oferecendo eficiência, custo baixo e liquidez. Ao redor deles, gravita um universo de gestoras que apostam em temáticos e estratégias diferenciadas para disputar atenção e fluxo.
Para o investidor, isso é uma boa notícia – desde que venha com consciência:
- gigantes para construir o esqueleto da carteira;
- nichos para trazer nuance, e não para virar o prato principal;
- foco em risco real, não em contagem de tickers.



