Se a MSCI expulsar empresas “cheias de Bitcoin” dos índices, o que acontece com a tese de BTC em balanço?
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A MSCI estuda excluir dos índices empresas com 50% ou mais dos ativos em Bitcoin. Entenda o que isso significa para Strategy, para o mercado e para a narrativa de “BTC em balanço”.
Introdução: quando “Bitcoin em balanço” vira risco de ser expulso do índice
A MSCI, uma das maiores provedoras de índices do mundo, abriu em 2025 uma consulta para mudar as regras de quem pode ou não entrar em seus índices de ações.
O ponto mais polêmico:
excluir empresas cujos ativos digitais (Bitcoin e outras cripto) representem 50% ou mais do total de ativos e que funcionem, na prática, como “digital asset treasury companies”.
Na mira direta está a Strategy (ex-MicroStrategy), hoje o maior corporate holder de BTC do mundo, com dezenas de bilhões de dólares em Bitcoin na tesouraria e listada em índices como MSCI USA e MSCI World.
Gente como Michael Saylor (Strategy) e gestores como a Strive Asset Management partiram para o ataque:
- dizem que a MSCI está tratando essas empresas como se fossem fundos de investimento, não companhias operacionais;
- e que isso pode desincentivar inovação e o uso de Bitcoin em balanço como estratégia de tesouraria e de acesso indireto a BTC via bolsa.
Vamos destrinchar o que está em jogo.
1. O que exatamente a MSCI está propondo
De acordo com documentos de consulta e reportagens recentes:
- a MSCI está avaliando reclassificar e potencialmente excluir de seus índices empresas em que:
- ativos digitais ≥ 50% do total de ativos; e
- essa exposição seja a atividade principal do negócio (as chamadas digital asset treasury companies, DATs).
- a consulta com clientes vai até 31 de dezembro de 2025;
- uma decisão final está prevista para 15 de janeiro de 2026;
- eventuais mudanças passariam a valer nas revisões de fevereiro de 2026.
A lógica da MSCI, segundo a própria:
- índices de ações devem representar empresas operacionais,
- não veículos cuja principal função é segurar ativos financeiros (no caso, cripto);
- se 50%+ dos ativos são Bitcoin, a empresa se parece mais com holding/fundo de investimento do que com uma companhia típica de índice.
Na prática, isso criaria uma categoria paralela:
empresas como Strategy seriam vistas como “Bitcoin treasuries” — elegíveis para índices específicos ou variantes “ex-cripto”, mas fora dos benchmarks tradicionais.
2. Por que Strategy (ex-MicroStrategy) é o alvo óbvio
A antiga MicroStrategy, hoje Strategy Inc., virou o caso mais extremo da tese “BTC em balanço”:
- é descrita em documentos como a “primeira e maior Bitcoin Treasury Company” do mundo;
- detém algo na casa de 600 a 650 mil BTC, com valor acima de US$ 60 bilhões em alguns momentos de 2025;
- em 2024, mais de 90% dos ativos já eram Bitcoin em valor contábil, segundo dados de balanço;
- segue comprando agressivamente, financiando as compras com emissões de ações e de preferreds (STRK, STRF, STRD, STRC, STRE).
Além disso, a ação MSTR (Strategy):
- faz parte de índices como MSCI USA, MSCI World, Nasdaq 100, Russell e CRSP Total Market;
- é usada por muitos investidores institucionais e varejo como forma “embalada” de se expor a Bitcoin via bolsa.
Estudos citados por JPMorgan estimam que:
- só a exclusão da MSCI poderia acionar até US$ 2,8 bilhões em vendas forçadas de fundos passivos;
- se outros provedores de índices seguirem o mesmo caminho, as saídas combinadas poderiam chegar a US$ 8,8 bilhões.
Não é pouca coisa.
3. As críticas: “estão tratando empresa como se fosse fundo”
A reação do mercado cripto foi rápida.
3.1. Michael Saylor / Strategy
Em entrevistas e comunicados, Michael Saylor deixou claro que a Strategy está “engajando no processo” com a MSCI, mas discorda da lógica de exclusão:
- argumenta que a empresa não é um fundo passivo, mas uma companhia que:
- estrutura e emite títulos lastreados em Bitcoin;
- gere ativamente capital (equity, dívida, preferreds);
- mantém também um negócio de software e analytics.
- vê a proposta como um ataque à neutralidade de mercado: em vez de deixar o investidor decidir se quer ou não essa exposição, o índice tiraria a opção da mesa.
3.2. Strive Asset Management
A Strive Asset Management, de Vivek Ramaswamy, enviou carta ao CEO da MSCI, Henry Fernandez, apontando outros problemas:
- padrões contábeis diferentes (US GAAP x IFRS) fazem empresas com exposição semelhante a Bitcoin parecerem diferentes no balanço;
- usar um corte fixo de 50% de ativos em cripto pode gerar tratamento desigual entre empresas de países/regimes contábeis diferentes;
- já existem índices customizados “ex-digital asset treasury”, assim como existem variantes ex-energia, ex-tabaco etc.;
- para a Strive, bastaria usar essas variantes, em vez de redesenhar o universo padrão para expulsar as “BTC treasuries”.
3.3. Cripto industry no geral
Matéria do Business Insider relata executivos comparando essa eventual exclusão a ignorar empresas de internet na década de 90:
- a tese é que Bitcoin em balanço seria uma inovação de estrutura de capital,
- e tirar essas empresas dos benchmarks seria uma forma de “punir” quem inova.
4. Efeito dominó: o que pode acontecer se a regra for confirmada
4.1. Vendas forçadas e pressão sobre ações (e, indiretamente, sobre BTC)
Se a MSCI confirmar a nova regra em janeiro de 2026, o roteiro provável é:
- Rebalanceamento de índices
- fundos passivos e ETFs que replicam MSCI USA, MSCI World e correlatos seriam obrigados a vender as ações das empresas excluídas;
- Pressão de venda nas ações
- relatórios falam em bilhões de dólares em saídas potenciais só no caso de Strategy;
- Efeito secundário em Bitcoin
- se a queda nas ações pressionar a estratégia de tesouraria dessas empresas, elas podem:
- reduzir ritmo de compra de BTC;
- em cenário extremo, vender parte do estoque para recomprar ações, reduzir dívida ou defender rating.
- se a queda nas ações pressionar a estratégia de tesouraria dessas empresas, elas podem:
Analistas citados em algumas matérias ponderam, no entanto, que:
- o tema já foi amplamente comunicado;
- parte desse risco pode estar precificada;
- e outros investidores podem ocupar o espaço, enxergando desconto.
4.2. Reprecificação da “estratégia BTC em balanço”
Mesmo que a exclusão não aconteça, o recado de risco regulatório fica:
- empresas de capital aberto que queiram seguir a linha “Strategy” terão de considerar:
- se podem perder acesso a índices de grande liquidez;
- se seus investidores-alvo são fundos passivos ou gente que quer exatamente a exposição a BTC concentrado;
- board, auditor e comitês de risco vão perguntar: “Se cruzarmos 50% de ativos em Bitcoin, quais índices podemos perder? E quanto isso custa em liquidez e valuation?”
Isso não mata a tese de BTC em balanço, mas pode limitar o número de empresas dispostas a ir tão longe quanto a Strategy.
5. O que muda na narrativa de “Bitcoin em balanço”
5.1. Para as empresas
- Modelo Strategy (BTC como ativo principal de tesouraria)
- continua possível,
- mas provavelmente será visto cada vez mais como modelo de nicho:
- menos alinhado com benchmarks tradicionais,
- mais próximo de um “produto híbrido” entre empresa e veículo de exposição a BTC.
- Modelo “balanceado” (uma fração do caixa em BTC)
- empresas que mantêm 10%, 20%, 30% do caixa em Bitcoin, sem cruzar o limite dos 50% de ativos, tendem a sofrer menos pressão;
- ainda assim, precisarão lidar com disclosure, volatilidade contábil e percepção de risco dos investidores.
5.2. Para o investidor em cripto
Alguns efeitos práticos:
- o investidor que usava MSTR/Strategy só como “proxy de BTC com alavancagem” vai ter que monitorar:
- risco de exclusão de índices,
- dependência de financiamento via mercado de capitais.
- pode surgir demanda por:
- ETFs de “digital asset treasuries”,
- índices específicos para empresas com BTC relevante em balanço,
- separando de vez esse universo dos índices “vanilla” como MSCI World/USA.
- reforça a importância de gestão de risco:
- BTC já é volátil por si;
- exposição via empresas que concentram tudo em BTC adiciona camadas de risco (governança, alavancagem, risco de exclusão de índice, etc.).
FAQ – Perguntas frequentes sobre MSCI e empresas cheias de Bitcoin
1. O que exatamente a MSCI está propondo?
A MSCI está consultando o mercado sobre excluir de seus índices empresas em que ativos digitais representem 50% ou mais do total de ativos e sejam a principal atividade do negócio, reclassificando essas companhias como digital asset treasury companies.
2. Quem pode ser afetado?
O exemplo mais citado é a Strategy (ex-MicroStrategy), que tem a maior tesouraria corporativa de Bitcoin do mundo e faz parte de índices como MSCI USA e MSCI World. Outras empresas com grande exposição em BTC também podem entrar no radar, dependendo do balanço.
3. Isso pode derrubar o preço do Bitcoin?
Diretamente, a regra mexe com ações de empresas e com fundos passivos que seguem os índices. O impacto em BTC seria indireto, por exemplo se:
- vendas forçadas de ações pressionarem essas empresas;
- elas forem levadas a vender ou parar de acumular Bitcoin.
JPMorgan fala em bilhões de dólares de vendas potenciais em MSTR se houver exclusão, mas parte desse risco pode já estar no preço.
4. A MSCI já decidiu?
Não. A consulta vai até 31 de dezembro de 2025, e a decisão está prevista para 15 de janeiro de 2026. Eventuais mudanças valeriam a partir das revisões de fevereiro de 2026. Até lá, empresas como Strategy e gestores como a Strive estão tentando convencer a MSCI a usar alternativas menos drásticas.
5. Isso significa que “Bitcoin em balanço” acabou?
Não, mas muda o jogo:
- empresas vão pensar duas vezes antes de ultrapassar 50% de ativos em BTC e arriscar sair de índices importantes;
- a tese deve continuar viva, mas talvez mais segmentada:
- de um lado, empresas “mainstream” com BTC moderado em caixa;
- de outro, poucas “Bitcoin treasuries” assumindo o risco total da concentração.
Para o investidor, reforça a necessidade de entender que:
exposição a BTC via ações de empresas não é só “BTC com CNPJ” é um pacote de riscos de mercado, contábeis, regulatórios e de índice.
Conclusão
A discussão da MSCI coloca um holofote em algo que muitos ignoravam:
usar Bitcoin como motor central do balanço tem implicações muito além do gráfico de preço.
Se a regra for adiante, a tese de “empresa cheia de BTC em índice tradicional” pode ficar bem mais rara — e isso força o mercado a separar, de maneira mais honesta, quem quer:
- exposição pura a Bitcoin (via spot, ETF, derivativos),
- de quem quer uma combinação de Bitcoin + negócio operacional + risco de capital de terceiros via ações.



