IA x Bitcoin: como as mineradoras estão virando data centers de alto desempenho (e o que isso pode fazer com a rede)

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Grandes mineradoras de Bitcoin nos EUA estão migrando parte da infraestrutura para IA e HPC em busca de margens melhores. Entenda o movimento, os riscos para a rede e o que isso significa para quem investe em cripto.


Introdução: do “ouro digital” para o “petróleo da IA”

Por anos, as grandes fazendas de mineração de Bitcoin foram sinônimo de galpões cheios de ASICs, consumindo energia barata para disputar blocos na blockchain.

Agora, uma matéria recente da Wired mostra que boa parte dessa infraestrutura está sendo reciclada para outro fim: IA e high-performance computing (HPC). Empresas como Riot Platforms, Bitfarms, Core Scientific e CleanSpark estão reposicionando galpões, energia e contratos para virar data centers para big techs, em vez de depender só da recompensa de bloco do BTC.

Motivo? Uma combinação de:

  • margens mais previsíveis com contratos de data center para Amazon, Google, Microsoft e afins;
  • pressão do halving, competição brutal e custo de energia;
  • preço do Bitcoin mais volátil, que transforma qualquer erro de timing em prejuízo.

Ao mesmo tempo, analistas já levantam a pulga atrás da orelha:

se muita hash power industrial migrar para IA, o que acontece com a segurança e a descentralização da rede Bitcoin?

Vamos por partes.


1. O que está acontecendo: mineradoras virando data centers de IA e HPC

A Wired descreve uma virada estrutural: as maiores mineradoras dos EUA estão redirecionando parte da infraestrutura para atender à explosão de demanda por computação de IA.

  • Riot Platforms, Bitfarms, Core Scientific, CleanSpark e outras foram construídas em cima de um modelo:
    • muita energia barata;
    • galpões refrigerados;
    • contratos de fornecimento elétrico de longo prazo;
    • controle fino de operação 24/7.

Isso é praticamente a mesma base física que um data center de IA precisa. A diferença é o que está plugado do outro lado:

  • em vez de ASICs só pra SHA-256,
  • GPUs e servidores de alto desempenho para treinar e rodar modelos de IA.

O racional é simples:

  • o custo fixo (energia, terreno, infraestrutura elétrica) já existe;
  • a demanda por IA está explodindo, com projeções de até US$ 2 trilhões em gastos com IA até 2026, segundo estimativas citadas em relatórios sobre CleanSpark;
  • os múltiplos de mercado para empresas de HPC/IA são muito maiores do que para mineradoras de Bitcoin.

2. Por que a mineração de Bitcoin ficou mais apertada

2.1. Halving, concorrência e energia cara

O modelo de negócio da mineração de BTC foi ficando mais difícil ao longo dos ciclos:

  • Halving: a cada quatro anos, a recompensa por bloco cai pela metade; isso reduz a receita em BTC da noite pro dia – quem tem custo alto sofre mais.
  • Concorrência: entrou mais capital institucional, mais ASICs eficientes, mais players com escala – a briga por cada bloco é mais intensa.
  • Custo de energia: em vários estados dos EUA, a energia ficou mais cara ou mais disputada; créditos de energia e acordos com grid ficaram menos previsíveis.
  • Preço volátil do BTC: mesmo em ciclos de alta, movimentos de –30% ou –40% em poucas semanas são comuns. Quem roda com margem apertada quebra fácil.

Exemplo:

  • a Riot, mesmo em fase de expansão, reporta margens pressionadas à medida que o custo de energia sobe e a competição aumenta, apesar de recordes de produção pós-halving.
  • CleanSpark só consegue manter o ritmo de expansão porque combina hashrate alto, custo competitivo e gestão agressiva de tesouraria em BTC.

2.2. Quando IA paga melhor que BTC

Em paralelo, relatórios como o da PowerMining Analysis mostram que:

  • empresas de HPC/IA são negociadas a múltiplos de 15 a 25x lucro,
  • enquanto mineradoras de Bitcoin costumam ficar em 2 a 4x.

Se você é CFO de uma mineradora listada em bolsa, a conta é cruel:

  • com a mesma infraestrutura,
  • você pode ser precificado como negócio de margem baixa e risco alto (mineração),
  • ou como data center de IA de crescimento, com múltiplo bem mais gordo.

A pressão de acionistas e do mercado empurra na direção óbvia: ir atrás de IA e HPC.


3. Casos práticos: Riot, CleanSpark, Core Scientific e cia.

3.1. Riot Platforms: halving + Corsicana para IA/HPC

A Riot Platforms é um dos casos mais emblemáticos:

  • em março de 2025, reportou 533 BTC minerados, maior produção mensal desde o halving;
  • ao mesmo tempo, anunciou que vai “agressivamente perseguir” o desenvolvimento da facility de Corsicana para atender demanda de IA e HPC, após estudo de viabilidade mostrar potencial de até 600 MW de capacidade adicional para esse tipo de cliente.

Ou seja, a empresa não está abandonando BTC, mas está deixando claro que o futuro da margem passa por data center de alto desempenho.

3.2. CleanSpark: tesouraria em BTC financiando o salto para IA

A CleanSpark segue uma estratégia “dual track”:

  • continua entre as maiores mineradoras públicas dos EUA, com mais de 6.500 BTC minerados em 2025 e 13.000 BTC em tesouraria;
  • ao mesmo tempo, está:
    • expandindo capacidade de energia em 1,3 GW de portfólio de energia, terras e data centers;
    • convertendo sites em “giga-campi” de IA em estados como Texas e Geórgia;
    • firmando parceria com a Submer para infraestrutura de liquid cooling de alta densidade, típica de IA/HPC.

Detalhe importante: a empresa usa a tesouraria em BTC como colateral para financiar expansão de IA sem diluir acionistas.

3.3. Core Scientific: contrato gigante com a CoreWeave

No caso da Core Scientific, a guinada para IA/HPC ficou clara com o contrato com a CoreWeave:

  • a CoreWeave se comprometeu com um acordo de 12 anos e 590 MW, com US$ 750 milhões em capex para adaptar as instalações da Core Scientific para AI/HPC;
  • analistas passaram a valorar a empresa com base em múltiplos de data centers de IA, não só de mineradora de BTC.

Mesmo com o deal de aquisição balançando, a narrativa principal permanece: infra de mineração virou ativo desejado pela indústria de IA.


4. Riscos: o que acontece se muita hash power migrar da rede Bitcoin?

A própria Wired levanta uma preocupação central: se os grandes mineradores públicos migrarem hash power de vez para IA, a segurança e a descentralização da rede Bitcoin podem ser afetadas.

Possíveis efeitos:

  1. Queda temporária de hashrate
    • se máquinas forem desligadas ou redirecionadas, o hashrate total cai;
    • a dificuldade se ajusta, mas em janelas de tempo há um período de menor custo para atacar a rede.
  2. Concentração geográfica e política
    • se mineradores privados saem, abre espaço para:
      • estatais em países com energia subsidiada,
      • ou grupos com interesses geopolíticos.
    • isso pode aumentar o risco de captura da mineração por poucos atores com agenda própria.
  3. Volta do “garimpeiro raiz”?
    • uma visão otimista é que, com menos gigantes, miners menores em regiões com energia barata voltariam a ter mais fatia relativa;
    • mas isso depende de acesso a equipamento e a contratos de energia que ainda são, em boa parte, jogo de escala.

Importante: até agora, o movimento é mais de diversificação de receita do que de desligar mineração de uma vez. Riot, CleanSpark e outras deixam claro que continuam minerando BTC enquanto abrem linha de negócio em IA/HPC.


5. IA x Bitcoin: o que isso significa para quem investe e faz trade

5.1. Para o preço do BTC

No curto prazo, esse movimento não altera diretamente a mecânica de oferta de Bitcoin (halving, emissão etc.), mas pode:

  • influenciar a percepção de risco da rede (discussões sobre segurança e concentração de hash);
  • afetar o apetite de investidores institucionais que olham para os fundamentos de descentralização.

Se uma parte relevante da mineração migrar para IA, a rede tende a se reequilibrar — novas operações entram em regiões com energia abundante. Mas esse reequilíbrio pode vir com períodos de maior fragilidade temporária.

5.2. Para ações de mineradoras em bolsa

Do ponto de vista de equity:

  • empresas que conseguem virar híbridas (BTC + IA/HPC) tendem a ser vistas como:
    • menos dependentes do preço do BTC,
    • com potencial de múltiplos mais altos por se aproximarem de data centers de nuvem/IA;
  • mineradoras “puras” ficam mais expostas a:
    • ciclos de halving,
    • hash war,
    • choque de preço de energia.

Isso não quer dizer que uma é sempre melhor que a outra, mas que o perfil de risco e de valuation muda bastante.

5.3. Para a narrativa de cripto x IA

Tem um lado simbólico forte:

  • por um bom tempo, “cripto” e “IA” pareciam tecnologias em disputa pela atenção e pelo capital;
  • agora, a infraestrutura construída para BTC está literalmente sendo usada para turboalimentar a IA.

Na prática, o investidor vai ter que aprender a olhar para:

  • hashrate, dificuldade e custo de produção de BTC,
  • capacidade de MW, contratos, parcerias com hyperscalers no lado de IA/HPC.

FAQ – Perguntas frequentes

1. As mineradoras vão abandonar completamente o Bitcoin para focar em IA?
Hoje, o movimento dominante é de diversificação, não de abandono.

  • Riot, CleanSpark e outras continuam minerando BTC, batendo recordes pós-halving, ao mesmo tempo em que desenvolvem sites para IA/HPC.
    A tendência é ver empresas com dois motores de receita: um cripto, outro IA.

2. Isso deixa a rede Bitcoin menos segura?
Pode haver riscos temporários se uma grande fatia de hashrate sair de cena rápido, mas:

  • a dificuldade se ajusta;
  • novos miners entram se a atividade voltar a ser lucrativa;
  • a própria dinâmica de mercado tende a buscar equilíbrio.

O ponto de atenção é se a mineração ficar muito concentrada em poucos países ou atores, o que poderia aumentar riscos de censura ou ataque coordenado.


3. IA está “matando” a tese de investimento em Bitcoin?
Não. São coisas diferentes:

  • IA é uma tese de tecnologia e produtividade;
  • Bitcoin continua sendo visto por muitos como ativo escasso, de ciclo, sensível a liquidez global e política monetária.

O que muda é que uma parte da infraestrutura que antes era 100% dependente de BTC agora tem uma alternativa de receita. Isso pode tornar algumas empresas mais resilientes, mas não anula a dinâmica de preço do próprio Bitcoin.


4. Isso é bom ou ruim para quem investe em ações de mineradoras?
Depende do perfil:

  • quem busca exposição mais direta a BTC pode preferir empresas que continuam mais “puras” em mineração;
  • quem prefere diversificação pode ver valor em mineradoras que viram híbridas BTC + IA e capturam múltiplos mais altos de data center.

Em todos os casos, é um setor de alto risco, muito sensível a preço de BTC, energia e condições de crédito.


5. O pequeno minerador volta a ter chance se os “gigantes” migrarem?
Em teoria, se grandes players desligarem parte da capacidade, o hashrate total cai e a dificuldade ajusta para baixo, abrindo um pouco mais de espaço para operações menores com energia barata.
Na prática, porém, acesso a hardware e a contratos de energia competitivos ainda é o fator decisivo – e isso continua favorecendo quem tem escala.


Conclusão: os racks mudam, a lógica de risco continua

A migração parcial de mineradoras de Bitcoin para IA e HPC mostra que:

  • a infraestrutura construída na era do “ouro digital” está virando coluna vertebral da economia da IA;
  • o mercado está recompensando empresas capazes de fazer essa transição sem abandonar totalmente o BTC;
  • e a comunidade precisa acompanhar de perto os efeitos desse movimento sobre hashrate, descentralização e segurança da rede.

Para quem investe ou faz trade, o recado é direto:

não dá mais pra olhar mineradora de BTC só como “alavanca para o preço do Bitcoin”.
Cada vez mais, você está olhando para empresas de infraestrutura de dados, com um pé em cripto e outro em IA e com todos os riscos que isso carrega.

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