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A Upbit sofreu um hack de cerca de US$ 36 milhões em tokens Solana via hot wallet. Entenda o que aconteceu, como a exchange reagiu e o que isso ensina sobre o risco de hot wallets para quem investe em cripto.
Introdução: mais um hack em exchange — mas com uma lição clara
No fim de novembro de 2025, a Upbit, maior exchange de criptomoedas da Coreia do Sul, voltou às manchetes pelos motivos errados:
- uma hot wallet na rede Solana foi comprometida;
- cerca de US$ 36–38 milhões em ativos foram drenados, algo em torno de 54–57 bilhões de won;
- o ataque envolveu mais de 20 tokens SPL, incluindo USDC, BONK, JTO, SONIC, RAY, RENDER, ORCA, PYTH, JUP, SOL e outros.
A Upbit reagiu rapidamente:
- suspendeu depósitos e saques na rede Solana;
- moveu os fundos restantes da hot wallet para cold storage;
- prometeu cobrir 100% das perdas dos clientes com recursos próprios.
Mais tarde, autoridades e analistas passaram a suspeitar que o ataque teria ligação com o grupo Lazarus, ligado ao regime norte-coreano, conhecido por grandes hacks anteriores.
Além do noticiário, esse caso é um prato cheio para educação financeira:
por que hot wallets são tão vulneráveis?
até onde dá para confiar na segurança da exchange?
É isso que vamos destrinchar.
1. O que aconteceu no hack da Upbit em Solana
1.1. Linha do tempo do ataque
De acordo com relatórios públicos e comunicados da própria exchange:
- na madrugada de 27 de novembro de 2025 (horário da Coreia), sistemas da Upbit detectaram “atividade anormal de saques” em uma hot wallet ligada à rede Solana;
- em poucos minutos, cerca de US$ 36–38 milhões em tokens foram enviados para um endereço desconhecido;
- os ativos roubados incluíam um mix de stablecoins, memecoins, tokens DeFi e de infraestrutura do ecossistema Solana (USDC, BONK, JTO, SONIC, RAY, RENDER, ORCA, PYTH, JUP, entre outros).
O ataque foi rapidamente identificado por empresas de monitoramento on-chain, que passaram a alertar sobre um grande fluxo saindo de carteiras vinculadas à Upbit.
1.2. Medidas imediatas da Upbit
Assim que percebeu o problema, a Upbit tomou algumas ações de emergência:
- suspendeu todos os depósitos e saques relacionados à rede Solana;
- isolou a hot wallet comprometida e migrou os saldos remanescentes para cold wallets;
- iniciou processos para congelar tokens via projetos parceiros, conseguindo travar parte dos ativos roubados (como LAYER);
- comunicou publicamente que nenhum cliente arcaria com prejuízo, pois o valor seria coberto com reservas da própria empresa.
Dias depois, a exchange começou a reabrir gradualmente depósitos e saques para os ativos que já haviam passado por auditoria e revisão de segurança.
2. Por que o ataque mirou uma hot wallet — e não a Solana em si
2.1. Hot wallet x cold wallet: o básico da história
É importante entender que:
- hot wallet = carteira conectada à internet, usada para operações do dia a dia (depósitos, saques, liquidação de trades);
- cold wallet = carteira offline, normalmente hardware ou armazenamento isolado, usada para guardar a maior parte dos fundos de forma mais segura.
No caso da Upbit, o ataque:
- não foi um hack da blockchain Solana;
- foi um comprometimento de infraestrutura da exchange (chave privada, acesso administrativo, API, servidor ou combinação disso).
Ou seja:
a rede Solana continuou funcionando normalmente — o que falhou foi a camada de custódia/segurança da Upbit ligada a uma hot wallet.
2.2. Por que exchanges precisam de hot wallets
Exchanges centralizadas (CEX) precisam de hot wallets para:
- processar depósitos e saques rápidos;
- abastecer ordens de mercado e liquidação;
- lidar com volume alto em múltiplas redes.
Na prática, isso significa manter uma parte do saldo sempre online. Quanto maior a exchange e mais redes ela suporta, maior a superfície de ataque.
Mesmo com camadas de segurança (multisig, whitelists, limiares de saque, monitoramento em tempo real),
o simples fato de estar conectado à internet torna a hot wallet um alvo muito mais fácil do que uma cold wallet offline.
3. Suspeita sobre o grupo Lazarus e o contexto de ataques anteriores
Autoridades sul-coreanas e empresas de segurança levantaram a hipótese de participação do Lazarus Group, grupo de hackers ligado à Coreia do Norte:
- o padrão do ataque lembra outros casos em que o grupo teria comprometido contas administrativas ou usado engenharia social para ganhar acesso privilegiado;
- o Lazarus já foi responsabilizado por centenas de milhões de dólares em hacks cripto recentes, incluindo casos envolvendo exchanges asiáticas.
A própria Upbit não é “virgem” em hacks:
- em 2019, a exchange já tinha sofrido um ataque que drenou cerca de 342.000 ETH, episódio também investigado com suspeita sobre o Lazarus.
Isso reforça um ponto importante: mesmo grandes operações, com histórico e receita bilionária,
continuam sendo alvo prioritário de grupos altamente sofisticados.
4. O que o caso Upbit ensina sobre o risco de hot wallets
Vamos para a parte prática: que lições tirar disso como investidor ou trader?
4.1. Exchange não é carteira
A primeira e mais batida — mas que muita gente ignora:
exchange é lugar de trade, não de custódia de longo prazo.
Se até a maior corretora da Coreia do Sul, com histórico robusto e possível fusão bilionária com gigante de tecnologia, é hackeada,
fica claro que “tamanho” não elimina risco operacional.
Para quem investe:
- ativos de longo prazo deveriam estar em carteiras sob sua própria custódia (cold wallets, carteiras de software não-custodiais, etc.);
- deixar grandes quantias em exchange, especialmente por muito tempo, é assumir risco de contraparte — por mais sólida que ela pareça.
4.2. Hot wallets são “ponto de fragilidade estrutural”
Do ponto de vista de arquitetura:
- enquanto houver necessidade de hot wallets para liquidez,
- haverá ponto de ataque exposto à internet.
Isso não quer dizer que toda hot wallet vai ser hackeada, mas:
- ataques bem sucedidos tendem a ser grandes (porque as hot wallets concentram saldos operacionais relevantes);
- e cada nova rede integrada (como Solana, L2, sidechains) adiciona superfície de ataque.
4.3. “A exchange vai ressarcir” ajuda, mas não resolve tudo
No caso da Upbit:
- a empresa prometeu cobrir integralmente os prejuízos com recursos próprios;
- clientes não perderam saldo nominal.
Mas isso não elimina outros riscos:
- risco de liquidez (se o valor roubado fosse maior do que a capacidade do caixa?);
- risco de tempo (quanto tempo o usuário fica com saques bloqueados?);
- risco de concentração (depender de uma única corretora para tudo).
Hoje deu “certo” — mas não é garantia de que todas as exchanges reagiriam da mesma forma, principalmente as menores.
4.4. Congelamento on-chain ajuda, mas não salva sempre
Upbit e parceiros conseguiram congelar parte dos fundos roubados, especialmente em tokens que permitem esse tipo de intervenção (como LAYER).
Só que:
- nem todo token tem função de congelamento;
- atacantes podem rapidamente trocar ativos por outros (como SOL → USDC → ETH) e mandar para outras redes, ofuscando mais a trilha.
Ou seja, congelamento é paliativo, não solução completa.
5. Como o investidor pode se proteger melhor (mesmo usando exchanges)
Algumas práticas que fazem diferença na vida real:
- Use exchanges como “ponte”, não como cofre
- Faça o depósito, opere, retire o que for de longo prazo.
- Deixe na corretora apenas o que faz sentido para trade ativo.
- Diversifique custódia
- Evite concentrar tudo numa única exchange, principalmente off-shore.
- Tenha uma parte em carteira própria (hardware wallet, por exemplo).
- Segurança básica de conta
- 2FA por app (Google Authenticator, Authy etc.), nunca só SMS.
- E-mail exclusivo para contas financeiras, com senha forte e 2FA.
- Atenção a redes e tokens “exóticos”
- Ataques muitas vezes exploram integrações mais novas, com processos ainda amadurecendo.
- Se for operar em redes recém-adicionadas, redobre cuidado e limites de valor.
- Esteja preparado para “saques suspensos”
- Em caso de incidente, a primeira medida da exchange é travar tudo.
- Tenha sempre uma parte da liquidez fora da corretora, para não ficar 100% travado.
Lembrando: nada disso elimina totalmente o risco apenas reduz a probabilidade de dano irreversível.
FAQ – Perguntas frequentes sobre o hack da Upbit e hot wallets
1. A blockchain da Solana foi hackeada?
Não. O ataque não foi na Solana em si, e sim na infraestrutura da Upbit ligada a uma hot wallet na rede Solana. A blockchain continuou funcionando normalmente; quem foi comprometida foi a custódia da exchange.
2. Clientes da Upbit perderam dinheiro?
Segundo a própria exchange, não. A empresa se comprometeu a ressarcir 100% do valor roubado usando seus próprios recursos, absorvendo o prejuízo como perda operacional.
3. Por que as hot wallets são tão visadas por hackers?
Porque elas:
- ficam online o tempo todo;
- movimentam valores relevantes para liquidez;
- geralmente têm permissões operacionais amplas (saques, swaps etc.).
Isso as torna mais vulneráveis que cold wallets, que ficam offline e exigem processos manuais para movimentação.
4. O grupo Lazarus realmente está por trás do ataque?
Autoridades sul-coreanas e empresas de segurança consideram o Lazarus Group um forte suspeito, por similaridade de padrão com ataques anteriores e histórico do grupo em hacks a exchanges. Porém, como em muitos casos de cibercrime, é difícil obter confirmação 100% definitiva.
5. Isso significa que não dá para confiar em nenhuma exchange?
Não é tão simples. Exchanges grandes podem ter:
- estruturas robustas de segurança;
- fundos de reserva;
- histórico de ressarcimento.
Mas nenhuma é infalível. O ponto não é “nunca usar exchange”, e sim:
- usar de forma inteligente;
- não concentrar patrimônio;
- manter parte relevante em custódia própria;
- tratar CEX como parceiro operacional, não como “banco” sem risco.
Conclusão: o recado do caso Upbit
O hack de cerca de US$ 36 milhões em tokens Solana na Upbit reforça uma mensagem que o mercado insiste em repetir, mas que muitos ignoram até sentir na pele:
hot wallets são, por natureza, pontos frágeis e usar exchange para tudo é terceirizar um risco que continua sendo seu.
A boa notícia é que, desta vez, uma grande corretora:
- agiu rápido,
- comunicou o mercado,
- protegeu usuários,
- e assumiu o prejuízo.
Mas contar com esse desfecho como regra é perigoso.
Se você opera ou investe em cripto, aproveite esse caso para revisar sua estratégia de custódia,
rever o quanto deixa parado em exchanges
e reforçar o básico de segurança digital — porque, no fim do dia, o ativo é seu, e a responsabilidade também.



