ETFs alavancados e cripto ETFs na tempestade: até onde vai a moda dos 3x, 5x e dos fundos de Bitcoin?

A SEC travou novos ETFs ultra-alavancados e cripto ETFs como o IBIT viveram recorde de saídas em novembro. Entenda por que 2025 virou um teste de estresse para ETFs alavancados e fundos de Bitcoin – e o que isso muda para seu risco.


Em 2024/2025, parecia que nada poderia segurar a onda dos ETFs alavancados e dos cripto ETFs:

  • fundos 2x, 3x e até 5x prometendo “turbo” em ações, índices e até Bitcoin;
  • ETFs de Bitcoin como o IBIT, da BlackRock, virando queridinhos de fluxo global;
  • produtos alavancados ligados a empresas “bitcoin-heavy” explodindo de volume.

Só que, de uns meses pra cá, veio um choque de realidade:

  • a SEC mandou cartas para vários emissores, deixando claro que não vai liberar ETFs acima de 2x de alavancagem com base na regra de derivativos (18f-4);
  • a ProShares retirou pedidos de ETFs 3x–5x (incluindo tech e cripto) depois de o regulador pausar a análise;
  • e os spot Bitcoin ETFs registraram recorde de saídas em novembro, com destaque para o IBIT, que sozinho viu bilhões de dólares irem embora em poucas semanas, em meio a uma queda de ~33% do BTC desde o topo de outubro.

Enquanto isso, um ETF 2x ligado à ação da Strategy (ex-MicroStrategy), empresa símbolo de “bitcoin na veia”, chegou a cair cerca de 81% desde novembro, mostrando como a combinação alavancagem + cripto pode virar um rolo compressor em mercados voláteis.

Neste artigo, você vai entender:

  • por que a SEC pisou no freio dos ETFs 3x e 5x;
  • como a maré virou para os cripto ETFs depois do hype;
  • por que ETFs alavancados viraram teste de estresse em 2025;
  • e o que tudo isso significa, na prática, para o investidor brasileiro que usa ETFs como principal veículo.

1. SEC travando a festa dos ETFs 3x e 5x: o que aconteceu?

1.1 As cartas da SEC e a “proibição prática” de ETFs acima de 2x

Em dezembro de 2025, veio a notícia: a SEC enviou cartas praticamente idênticas para nove emissores (ProShares, Direxion, GraniteShares e outros), deixando claro que os pedidos de ETFs com alavancagem acima de 2x dificilmente vão passar.

Segundo análise da ETF.com:

  • a SEC entende que, pela Regra 18f-4 (derivativos), o fundo tem um limite de alavancagem de 200% em relação ao seu “portfolio de referência designado”;
  • se o ETF promete 3x ou 5x de Apple, Nasdaq ou Bitcoin, esse ativo precisa ser o benchmark de VaR – e, nesse contexto, nada acima de 2x passa no teste.

Na prática, o recado foi:

“ETFs acima de 2x não cabem no framework atual.
Quem estava tentando lançar 3x ou 5x, reavalie.”

Logo depois, a ProShares retirou pedidos de vários ETFs altamente alavancados (incluindo alguns com foco em tech e cripto), reconhecendo que os produtos “podem não atender aos padrões legais existentes”.

1.2 Por que isso importa para o investidor de varejo?

Para quem está de fora, pode parecer uma briga técnica sobre VaR e regra 18f-4. Mas, na essência, é simples:

  • ETFs 3x e 5x multiplicam tanto ganho quanto perda – em cripto, isso é brutal;
  • o efeito de rebalanceamento diário gera “decay” em mercados voláteis: mesmo acertando a direção no longo prazo, o produto pode ficar bem atrás do ativo-alvo;
  • em ambiente de redes sociais e FOMO, o varejo tende a usar esses produtos como aposta, não como ferramenta tática.

A SEC está basicamente dizendo:

“Vamos limitar o estrago.
Quer alavancagem? Até 2x. Acima disso, não.”

Isso vale tanto para ETFs de índices tradicionais quanto para cripto e ações “bitcoin-heavy”.


2. Cripto ETFs no meio da tempestade: do hype ao pior mês de saídas

2.1 De heróis de fluxo a vilões do drawdown

Depois da aprovação dos spot Bitcoin ETFs em 2024, os produtos listados nos EUA:

  • acumularam dezenas de bilhões em entradas;
  • passaram a concentrar mais de 1 milhão de BTC em conjunto;
  • transformaram o IBIT, da BlackRock, no ETF líder em ativos e liquidez em exposição direta a Bitcoin.

Só que em novembro de 2025 o jogo virou:

  • o BTC caiu cerca de 33% desde a máxima de outubro (por volta de US$ 126k), chegando a negociar abaixo de US$ 85k em um dos dias do sell-off;
  • os spot Bitcoin ETFs tiveram recorde de outflows, com estimativas entre US$ 2,5 bi e US$ 3,6 bi de saídas no mês, dependendo da fonte;
  • só o IBIT viu entre US$ 1,6 bi e US$ 2,1 bi de resgates em novembro, incluindo dias isolados com mais de US$ 500 mi de saídas.

Ou seja: o que era vitrine virou amplificador da dor.

2.2 “Teste de estresse” para quem entrou só pelo FOMO

Essa tempestade revelou alguns pontos:

  • muitos investidores entraram em cripto ETFs no topo ou perto dele, empurrados pelo fluxo de notícias;
  • o ETF, por ser “regulado e fácil”, acabou dando uma falsa sensação de segurança em relação ao risco do ativo-base (Bitcoin);
  • em queda forte, o efeito é o mesmo de segurar BTC:
    • volatilidade diária alta,
    • drawdowns profundos,
    • emocional no limite.

A novidade de 2025 é que agora existe histórico real de drawdown via ETF – não é mais só backtest.


3. Quando o “turbo” encontra a cripto: ETFs alavancados como exame de risco

3.1 O exemplo do ETF 2x de Strategy (ex-MicroStrategy)

Se os ETFs spot de Bitcoin já sofreram, imagine os ETFs alavancados em ativos ligados a Bitcoin.

Um caso que ganhou manchetes em fevereiro de 2025:

  • o T-REX 2X Long MSTR Daily Target ETF (MSTU), que oferece 2x alavancagem diária em Strategy (ex-MicroStrategy);
  • desde o topo em 20 de novembro, o ETF chegou a cair cerca de 81%, com perda de ~40% em apenas três sessões, enquanto a ação MSTR/Strategy caía algo em torno de 20% no mesmo período.

Por quê?

  • Strategy é praticamente um proxy de Bitcoin – altamente correlacionada e com alavancagem financeira própria;
  • o ETF adiciona mais uma camada de alavancagem (2x) em cima de um ativo já volátil;
  • a combinação de queda + rebalanceamento diário corrói o valor muito mais rápido do que a intuição do investidor médio.

Resultado: para quem entrou no “pico da euforia”, a experiência foi de quase zerar a posição em poucos meses.

3.2 O que esse tipo de caso ensina

Algumas lições importantes:

  1. Cripto + alavancagem = altíssimo risco
    • Bitcoin e empresas “bitcoin-heavy” já têm volatilidade absurda;
    • alavancar isso via ETF multiplica tanto os ganhos quanto os drawdowns violentos.
  2. ETFs alavancados não são para “segurar por anos”
    • a lógica desses produtos é tática e diária;
    • em horizontes longos e voláteis, o resultado pode ficar muito longe da matemática simples de “2x”.
  3. Regulador olhando de perto
    • o caso MSTU/MSTR mostra na prática o motivo de a SEC estar desconfortável com propostas de 3x–5x, inclusive em cripto;
    • se 2x já faz esse estrago, imagine 5x em Bitcoin no meio de uma queda de 30–40%.

4. O que tudo isso muda para o investidor brasileiro?

4.1 ETFs alavancados: para quem (talvez) faz sentido – e para quem não faz

De forma bem direta:

  • não faz sentido para:
    • iniciante em renda variável/cripto;
    • quem não tem rotina de acompanhar mercado diariamente;
    • quem pensa em “comprar e esquecer” por anos.
  • pode fazer sentido tático para:
    • trader experiente, que entende volatilidade, rebalanceamento e risco de liquidez;
    • operações específicas de curto prazo, com stop, alvo e tamanho de posição bem definidos;
    • quem usa o produto como ferramenta, não como “bilhete de loteria”.

Mesmo assim, é importante reforçar:

ETF alavancado é ferramenta de alto risco, não solução mágica.

4.2 Cripto ETFs: vantagem operacional ≠ investimento sem risco

Os cripto ETFs têm benefícios reais:

  • simplificam a parte operacional (sem precisar de corretora cripto, carteira própria, etc.);
  • resolvem temas de custódia, auditoria e contabilidade;
  • permitem tratar Bitcoin/Ethereum como qualquer outro ticker na corretora.

Mas:

  • o risco de mercado é praticamente o mesmo de segurar o ativo-base (BTC/ETH);
  • o ETF não “amortece” drawdown de 30%–40% em poucos meses;
  • fluxos massivos de saída, como vimos em novembro, podem aumentar a sensação de pânico.

Para o investidor brasileiro, vale encarar cripto ETFs como:

  • uma forma mais simples de acessar cripto,
  • mas ainda assim uma alocação de alto risco, que deve ser pequena dentro da carteira e pensada de forma estratégica.

FAQ – ETFs alavancados e cripto ETFs em 2025

1. A SEC proibiu ETFs alavancados?

Não exatamente. A SEC não baniu todos os ETFs alavancados, mas, na prática, fechou a porta para novos produtos acima de 2x:

  • cartas recentes deixaram claro que, sob a regra 18f-4, produtos 3x e 5x não passam no limite de VaR;
  • ETFs 2x continuam existindo, mas sob regras de gestão de risco bem mais rígidas.

2. Vale a pena usar ETFs alavancados para longo prazo?

Em geral, não.

Por causa do rebalanceamento diário e da volatilidade, ETFs alavancados tendem a:

  • descolar do múltiplo “teórico” (2x, 3x, etc.) no longo prazo;
  • sofrer com o chamado volatility decay, especialmente em mercados muito voláteis como cripto;

Eles são pensados para operações táticas de curto prazo, não para buy & hold de anos.


3. Cripto ETF é mais seguro que comprar Bitcoin direto?

Depende do que você chama de “seguro”.

O ETF:

  • melhora a segurança operacional (custódia, perda de chave, hacks de corretora);
  • simplifica a parte regulatória e de imposto.

Mas não muda a essência:

  • o ativo-base é o mesmo (Bitcoin, Ethereum, etc.);
  • a volatilidade e os drawdowns continuam altos;

O risco de mercado continua grande – só fica mais “empacotado”.


4. O que aconteceu com os grandes cripto ETFs em novembro de 2025?

Em novembro de 2025:

  • o Bitcoin caiu cerca de 30%–33% a partir do topo de outubro;
  • os spot Bitcoin ETFs registraram recorde de saídas, com estimativas de US$ 2,5 bi a US$ 3,6 bi de outflows;
  • o IBIT, da BlackRock, concentrou uma parte relevante dessas saídas.

Foi, na prática, o primeiro grande teste de estresse dos cripto ETFs desde a euforia inicial de lançamento.


5. ETFs alavancados de ações “bitcoin-heavy” são menos arriscados que cripto puro?

Não necessariamente.

O exemplo do ETF 2x de Strategy/MicroStrategy mostra que:

  • mesmo sem estar exposto ao BTC direto, o ETF pode cair 80%+ em poucos meses, porque a ação é fortemente ligada à cripto;
  • além da volatilidade do ativo-base, você ainda tem o efeito cumulativo da alavancagem.

Na prática, é risco em dobro: risco da empresa + risco de cripto + risco da estrutura alavancada.


Conclusão: ETF continua sendo “caixinha padrão” – mas não mágica

A dupla que você trouxe captura bem o momento:

  • Tema 1: a SEC está travando a moda dos ETFs ultra-alavancados (3x, 5x, single-stock e cripto), usando a regra 18f-4 e o limite de VaR para dizer “até aqui”;
  • Tema 2: os cripto ETFs passaram do hype ao recorde de outflows em novembro, enquanto ETFs alavancados ligados a ativos “bitcoin-heavy” derretem 80% em questões de semanas.

Para o investidor:

  • ETF continua sendo um veículo poderoso – barato, líquido, prático;
  • mas não é escudo contra risco de mercado, muito menos quando falamos de ETFs alavancados e cripto ETFs.

Se você quiser usar esse universo a seu favor, alguns princípios ajudam:

  • tratar alavancagem como exceção controlada, e não regra;
  • manter cripto (spot ou via ETF) como fração de alto risco da carteira, não como 100% do patrimônio;
  • focar mais em processo e gestão de risco do que em “produto da moda”.

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